Os apelidados propagandistas

Hoje trago aqui, neste breve relato, uma síntese dos principais acontecimentos que marcaram época num auspicioso período da propaganda médico-científica de divulgação e apresentação de vários produtos farmacêuticos, disponíveis até os dias atuais no mercado nacional.

É possível valorizar aqui o desempenho desses verdadeiros profissionais, homens de campo, e aquilatar efetivamente com expressividade, o desenvolvimento de novos lançamentos de especialidades dos produtos farmacêuticos que, vieram no decorrer do tempo, beneficiar muitas pessoas que necessitavam de seu uso.

Os fatos aqui descritos são passados nos limites do espaço urbano da cidade, em particular numa das regiões mais nobres de São Paulo, como a Praça Oswaldo Cruz, Rua Cincinato Braga, trecho da Avenida Paulista entre o Hospital Santa Catarina com a Brigadeiro Luiz Antonio e o Hospital Osvaldo Cruz antigo Hospital Alemão, e a Praça Amadeu Amaral até nos limites do Hospital da Beneficência Portuguesa.

A coisa começa ali, naquele pequeno prédio da Cincinato Braga, 59, onde havia vários dos mais sofisticados consultórios médicos e dos melhores especialistas de São Paulo. A reunião de diversos propagandistas dos principais laboratórios farmacêuticos do Brasil, todos eles concentrados no saguão do prédio, representavam com orgulho, cada um a sua marca. Lá, quase todos os homens de campo eram literalmente apelidados, o que caracterizava a privilegia norma culta que cada representante da indústria farmacêutica nacional e internacional representava ali.

Os fatos aqui narrados não ultrapassam ao período compreendido entre 1970 a 1990, portanto, vinte anos passados, quando todo esse enriquecimento dos protagonistas desta pequena história se encerrou de maneira gloriosa com a dispersão de cada membro das equipes da propaganda médica (quase todos aposentados).

Sem nenhum demérito, ficam aqui registrados alguns de seus digníssimos representantes pelos seus apelidos exóticos. "Raquetão", devido às mãos que mais pareciam duas grandes raquetes de tênis e uma voz de trovão característica de um legítimo representante da máfia italiana.

Outro ícone talentoso da época era vulgarmente conhecido por "Gastro" (já falecido) que, através do sufixo designativo do "ite,", ou seja, portador de uma inflamação crônica na mucosa do estômago que lhe granjeava um forte desconforto, foi-lhe colocado com muita propriedade o apelido. O "Gastro" era um conceituado representante do departamento de especialidades farmacêuticas e trazia consigo, dentro da ética profissional, os conhecimentos dos vocábulos tecnológicos da época, encaixados nos devidos verbetes com destaque para os situados nas áreas da Patologia, da Farmacologia Geral e da Psicofarmacologia, todos relacionados com os medicamentos da Divisão Farmacêutica da Rhône (Rodhia) Poulanc francesa. Algumas expressões como "neuroléptico", "psicotrópico", "psicoléptico", termos esses, médicos-científicos, que ainda não estavam sendo devidamente cunhados e divulgados no Brasil.

Todos esses vocábulos não estavam ainda inclusos nos dicionários da nossa língua portuguesa, nem mesmo nos dicionários especializados médico-farmacêuticos nacionais. Eles estavam na fase de gestação, portanto, não tendo ainda sido difundidos aqui no Brasil.

Após o lançamento da "Clorpromazina", descoberta por um químico francês, Paul Charpentier, em 1947, é que ficou caracterizado na Europa como um "neuroléptico" por uma multiplicidade de ações sobre o Sistema Nervoso Autônomo Periférico Central. Foi desta forma que começou a difundirem-se os termos "Neuroléptico", "Psicotrópico", "Psicoléptico.

Havia, também, a necessidade dos lembretes dos anestésicos de base, medicação de substâncias pré-anestésicas sobre o Sistema Nervoso Central. Tinha-se que divulgar aos médicos anestesistas a anestesia de condução pelo bloqueio do influxo nervoso em um nervo. Também havia a divulgação da anestesia extradural, uma modalidade raquidiana.

Devo lembrar ainda da figura de outro digno expoente representante da indústria farmacêutica nacional, denominado carinhosamente pelos colegas de profissão como o "Pisca Pisca" ou "mata verme". O "Pisca" possuía um tique nervoso que o caracterizava com o apelido. Consistia na contração nervosa involuntária de uma das pálpebras, sempre piscando continuamente. Era ele o divulgador especialista do "zoológico dos vermes", com notoriedade em parasitologia médica. Colaborador eficiente do Vicente Amato Sobrinho, com seus produtos de largo espectro, o “Pisca Pisca” era um especialista na divulgação e apresentação dos anti-helmintos no tratamento das infestações parasitológicas. Na época, ele estava lançando e divulgando entre os médicos especialistas "pediatras", o "Pamoato de Pirantel", um medicamento eficaz no tratamento nas doenças causadas pelos vermes com excelentes resultados na cura proctoparasitológica.

Não quero aprofundar-me mais no tema, porque o espaço aqui é exíguo e não permite maiores detalhes. Quero apenas deixar consignado o apelido de alguns profissionais do ramo da propaganda médico-cientifica da época onde os principais lançamentos se encontram até os dias de hoje nas prateleiras das principais farmácias e drogarias de todo Brasil.

Aqui vão algumas raridades da propaganda e divulgação cientifica: O "Zangado", sempre amuado, enfezado, de mal com a vida, acho que brigava diariamente com a mulher; "Galináceo," o conquistador meia boca das enfermeiras do setor hospitalar (ambos dinâmicos representantes das linhas de produtos da Abbott). Para o "Mandraque," o apelido caiu-lhe como uma luva, retratado no personagem dos gibis como cheio de truques e mágicas; ele era do laboratório Clímax. O "Embalsamado", mais parecido como uma múmia do antigo faraó do Egito, representava na época os laboratórios Ciba-Geiger.

"Cascata" ou "Palheiro" (falecido) o fazedor de cascata pela sua prolixa fluência verbal, derramando palavras repetitivas, cheias de “lero lero”, de conversa fiada e fazendo muita "palha" nos assuntos do cotidiano, o que lhe granjeou o apelido com muita propriedade; era ele representante do laboratório "Astra".

"Cavalista", que figura… Elemento entendido e adepto dos páreos no hipódromo de Cidade Jardim, aonde, diariamente, e na hora do expediente de trabalho, ia sorrateiramente, como de costume, fazer as suas apostas nas patas dos cavalos (quase sempre perdia as calças no jogo). O "olheiro" do laboratório estava sempre na sua mira.

"Velho Barreiro" ou "Velho Cachorro", apelido ganho por sua capacidade de beber vários tragos de pinga misturada com cinzano denominado (rabo de galo), era representante de um laboratório do bairro da Aclimação especializado na linha oftalmológica. "Prepúcio", figura carismática devido a sua autêntica cara enrugada, era um dos principais "olheiros" de um grande laboratório multinacional, o Roche. O "Recoreco" quando falava e gesticulava, parecia uma matraca de procissão em plena semana santa. Hugo, "Camarão", porque tinha o rosto avermelhado e era amante das histórias sobre os costumes da vida do sapo cururu.

"Pistolinha", da Bayer, verdadeiro cara de pau, furador de filas, não respeitando os colegas nos consultórios da Rua Itapeva (como diria o falecido doutor Zerbini, “é falta de consideração e ética para com os seus colegas”). "Patinho Feio", um autêntico carioca com sotaque carregado de "s" e "r”, figura digna de aparecer num almanaque miniatura de farmácia. "Cegonha" (já falecido), do H. Robins, pelos seus vôos rasantes nas maternidades de São Paulo. “De Paula”, irmão gêmeo do Pinóquio por seu nariz adunco com seu "possante" carro Mercedes Bens do tempo III Reich, que foi posto a "venda" sem seu conhecimento por cinquenta cruzeiros sem contra oferta em pleno Viaduto Maria Paula.

O "Espingarda" (falecido), parecido com um velho fuzil do tempo do Império português. Cláudio "O Halterofilista", figura eminentemente popular pelos anúncios nos outdoors das Lojas Garbo como garoto propaganda; mentor e criador do nome comercial da caninha "Velho Barreiro," das propagandas da Chicletes Adams, fantasiado de Tarzan nos outdoors publicitários espalhados pela cidade toda. Era ele o homem da pergunta e da resposta criativa: “O que é um Zulu? Uma tribo africana? Não! Uma marca de álcool? Também não! Então, afinal, o que era um Zulu?”. Resposta do "Halterofilista" na prova de admissão do Laboratório Instituto Pinheiros: "Zulu, é uma centopéia anfíbia com corno e chifre para enfiar no… de que fez essa pergunta". Foi imediatamente admitido pela gerência do laboratório pelo seu gênio criativo.

"Pingoleta" da Merck, devido às suas apreciadas rodadas de caipirinhas todos os fins de tarde no Bar do Sujinho na Rua Treze de Maio. "Conde Drácula", advogado do diabo e fiel escudeiro, representante do laboratório Squibb, visto pelo ângulo de dois dentes caninos saltados, parecendo um vampiro chupador de sangue, o que lhe granjeou com muita propriedade o apelido. E "Ratazana", pela sua expressiva voracidade em rondar todas as gavetas do Hospital das Clínicas em busca do "lixo" para matar a sua curiosidade doentia.

Houve muitos mais representantes que agora já não me acodem à memória devido ao passar dos anos. Enfim, deixando de lado a parte humorística desta crônica, a todos esses sérios e maravilhosos propagandistas de produtos farmacêuticos de saudosa memória (muitos deles já falecidos), o reconhecimento inconteste de toda a distinta classe médica da época. A todos esses homens que, de forma responsável, ajudaram, com seu honrado trabalho de divulgação médico-científica, a salvar muitas preciosas vidas. A minha, a nossa, sincera homenagem a todos eles.

E-mail: [email protected]