Sim! Com certeza, ao seu lado haverá um violão… Onde quer que você esteja!
Quando tentei aprofundar-me no fosso do passado, as recordações que vieram à tona eram gratas… Mas não muito nítidas. Sua fisionomia estava distante, talvez, por não relembrá-la há muito tempo. Resolvi fazer uma experiência: retoquei as cores, reavivei os contornos e surgiu você. E pasme… Escutei o som exato da sua voz!
Verifiquei então que, ao fechar os olhos, poderia revê-lo com espantoso realismo, sentindo até a alegria e vivacidade dos nossos (os meus e também os seus) olhos… Naquelas noites recuadas no tempo!
Lembrei-me que, quando saía do meu trabalho – no prédio da Galeria Olido – você sempre estava lá, à minha espera! Vinha ao me encontro e me abraçava e, esse abraço, era tão bom, tão aconchegante que eu sempre pensava que seus braços foram feitos na medida exata para me abraçar. Mas o melhor mesmo era a mística, a poesia, a mágica que havia e que fazia com que a eternidade coubesse toda naquele segundo do seu abraço…
E os sonhos que juntos sonhávamos, quando não mais precisássemos nos despedir? Das viagens de trem que faríamos e das madrugadas que passaríamos acordados para, juntos, vermos o amanhecer? Os versos que fazíamos e a música que tocava (bastava eu cantarolar baixinho) e você a transformava na mais linda canção?
Ah! As ruas que percorríamos para irmos embora: Dom José de Barros, Barão de Itapetininga e quando chegávamos ao Viaduto do Chá, começava o entardecer, o sol refletia-se nos vidros dos prédios e você dizia que gostaria de ser pintor para retratar tanta beleza… E eu ouvia tudo enlevada, sem dizer nada, para não quebrar a magia daquele momento (Sabe… Até hoje o procuro por lá – procuro o passado e… Aqueles dias).
Recordo-me… Dei-lhe meus olhos, dei-lhe minha boca; gota a gota, dei-lhe meu sangue; dia a dia, dei-lhe minha vida; dei-lhe o embalo de meus pobres poemas; o tédio de meus dias longos, minhas noites de solidão… Quem agora, silenciosa e amiga, ouve-o narrar um passado do qual não teve um dia sequer, perguntando-se com ciúmes, quem foi que chamou sua atenção para a beleza das noites e verões profundos, o gosto perfumado e longo dos caminhos solitários, a primeira viagem, a primeira noite em um trem e a primeira paisagem?
A quem pertence o coração que bate loucamente, quando em um momento de aconchego e abandono lhe seguras ternamente as mãos?
Fomos tão felizes… Você se lembra?
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