Na década de oitenta, eu era Coordenadora Pedagógica da Escola Municipal de Primeiro Grau Wanny Salgado Rocha, localizada na Ponte Rasa.
As aulas já haviam começado, quando um pai desesperado veio em busca de uma vaga na 1ª série do Ensino Fundamental. Sua filha era uma menininha de sete anos, vitima da Talidomida, um remédio que as mães tomavam para evitar enjoos enquanto grávidas, e seus braços terminavam nos cotovelos por onde saíam dois dedinhos de cada lado.
Segundo o pai, as escolas das redondezas sugeriram que ele procurasse uma escola especial, mas com lágrimas nos olhos este pai pedia uma chance para sua filha frequentar uma escola normal, afinal não existia anormalidade com sua pequena, a não ser a deficiência física nos braços. Conversei então com a diretora e ela me autorizou a fazer uma avaliação com a pequena Juliana.
No dia seguinte a Juliana estava lá, linda, alegre, de olhos e cabelos negros como a noite. Um sorriso meigo e esperto ao mesmo tempo. Subimos para sala e ela não hesitou em entrelaçar seus dedinhos na minha mão.
Começamos a conversar e logo notei como ela era especial. Foi emocionante vê-la escrever, ler, usar a borracha e virar as páginas do caderno com destreza de uma criança normal.
Claro que ela ganhou a vaga. Escolhi uma professora que a aceitou sem problema algum, inclusive os seus alunos a receberam carinhosamente.
Os anos se passaram e a Juliana conseguiu se sair bem até completar o 1° grau, depois perdi o contato com ela e a família.
Passado alguns anos ela me procurou, mas agora muito triste, precisava trabalhar, mas as portas eram sempre fechadas pelo problema físico, um preconceito que ela sentia na pele. Consegui dar algumas orientações, mas não sei se teve sucesso. Depois disso nunca mais soube de seu paradeiro.
Quero dedicar este texto a ela e a tantas outras Julianas com o mesmo problema que sofreram e ainda sofrem com este preconceito.
Quantas vezes ouvi pessoas dizerem que o deficiente nunca teria chance em sua empresa.
Hoje ainda as discriminações existem, e mesmo engatinhando, sei que as empresas têm investindo no processo de inclusão social, visando a diversidade e a valorização de talentos. Isto tem proporcionado uma melhoria na qualidade de vida dos deficientes em geral.
Tomara Deus que a Juliana esteja bem, feliz e trabalhando.
Onde estiver que Deus a proteja e que muitas oportunidades cheguem até ela.
e-mail do autor: [email protected]