Vivi durante uns oito anos na Rua Borba Gato, hoje renomeada como Virgílio de Carvalho Pinto. Mamãe Zita, muito zelosa dos filhos, trancava o portão da rua e tínhamos de nos contentar com o quintal ou com o jardim da frente da casa.
Naquele tempo, entre 1958 e 1962, vendedores de rua traziam um mundo de artigos na porta de casa e tinham que caprichar na voz, pois era a tal da venda no grito mesmo. A dona de casa tinha de escutar as ofertas lá de dentro de sua cozinha e correr para efetuar a compra. Os vendedores vinham a pé, de bicicleta, de carrocinha empurrada pelo vendedor e outras de tração animal.
De manhã vinha o meu predileto, "Olha o Bijúúúúúú", e tinha uma matraca feita de um pedaço de madeira com uma argola de ferro que, com um movimento rápido da mão, faziam um barulhento téc-téc-téc-téc; era um grito e uma matracada, e assim a molecada toda desembestava pela rua para trocar uma moedinha pelo crocante biscoito.
Como, de que e onde era feito? Para mim é um mistério; não era coisa que víamos em nossas casas.
E tinha muito mais, como o tal do "buchêroooooo", e as mulheres corriam para comprar o bife do dia. Ficava implicando com o nome do bucheiro, pois devia vender bucho e vendia carne. Uma vez amolei tanto o meu nonno com essa história que ganhei um puxão de orelhas; mas mantive a minha convicção de que o vendedor de carnes devia ser o "carneiro". Meu avô nervoso falava bravo: "Isso é outro bicho!"
E vinha o sorveteiro, e o vendedor de verduras: "Verdurêroooooo", e também, nos últimos tempos em que lá morei, vinha o cara das frutas, com quase toda a carga de laranjas com um pouco de melancias e abacaxi.
A melancia me lembra um primo advogado que me disse existir uma lei municipal em São Paulo do comecinho do século 20 e que não foi revogada até hoje, que proíbe de comer melancias na rua, com multa e prisão para os infratores. Muito curioso!
O mais famoso dos "vendedores de gogó", sem sombra de dúvida, foi aquele da pamonha de Piracicaba, mas eu sabia por ouvir falar de pessoas de outros bairros, pois lá em Pinheiros ele não passava.
Vai um bijuzinho aí? Clarinho ou mais moreninho? Olha o bijúúúúú!
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