Nos anos 70, quando não havia essa violência das brigas entre torcidas, mesmo que fosse para ver um jogo ruim, ou o que é pior, ver um jogo bom e seu time perder, a ida aos estádios de futebol era divertida também pelas coisas que aconteciam fora de campo.
Relembro aqui duas passagens que presenciei, esperando mais uma vez os comentários e também a lembrança de outros casos:
1 – Santos x Corinthians, Estádio do Morumbi, 1973:
Na arquibancada, uma senhora gorda, sentada em uma almofada que pelo tamanho daria para acomodar umas três pessoas, ao ler os dizeres "Rivelino é o novo Rei" em uma faixa que acabara de ser aberta por dois rapazes, pede gentilmente a eles:
– Meus filhos, por favor, enrolem essa faixa, não provoquem o crioulo (se referindo ao Pelé), vocês são muito novos e não sabem com quem estão mexendo, ele já fez a Fiel (torcida do Corinthians) sofrer muito…
O pedido da senhora teve efeito contrário, pois, para provocá-la, os rapazes passaram a exagerar nas vaias e gozações a Pelé, que então muitos consideravam velho e em final de carreira, sempre que ele tocava na bola.
Então aconteceu o lance. Pelé, que nem estava jogando bem naquele dia, partiu com a bola do meio de campo, passou por três ou quatro adversários, e para desespero da Fiel, fez mais um belo gol contra o Corinthians.
A gentil senhora, que até aquele momento nem havia se levantado de sua almofada, se transformou completamente, e com uma agilidade incrível para seu peso e idade, agarrou a faixa num pulo e partiu para cima dos rapazes, que saíram correndo, gritando:
– Eu não falei pra não mexer com esse crioulo filho da p…, seus veados? Hoje ele não queria nada… foi só ele olhar pra cá e ver a p… dessa faixa… quero ver quem é homem de vir aqui e pegar ela de volta!
Aos policiais que chegaram ao local devido à correria, que abriu um clarão na arquibancada, a senhora, agora já recomposta, calmamente, apontou os dois rapazes da faixa, que teriam começado uma briga, como responsáveis pelo tumulto, o que foi confirmado por vários outros torcedores.
Ao serem retirados do estádio, os dois rapazes ainda tentaram argumentar com os policiais, que levando em conta o depoimento de uma senhora distinta e testemunho de outras pessoas, não deram a mínima.
Sob aplausos, a senhora rasgou a faixa e voltou a se acomodar em sua almofada.
Pensando bem, não deixou de ser uma homenagem ao Pelé pelos corinthianos.
2 – Palmeiras x Portuguesa, Estádio do Morumbi, 1972:
Ninguém entendia nada, quando alguns torcedores do Palmeiras, voltados para o alto da arquibancada, gritavam:
– Aí padeiro puxa saco!!!
– Seu confeiteiro safado, fazendo média com o patrão… amanhã todo pessoal da padaria vai ficar sabendo!!!
– Seu sem vergonha, quer ganhar aumento de salário… todo mundo lá na vila sabe que você é corinthiano!!!
Só soubemos do que se tratava quando se levantou um rapaz negro, com a camisa e bandeira da Portuguesa (que já foi motivo de surpresa e risadas), que respondeu:
– Corinthiano é a p… que os pariu!!!
Com o título "Mal entendido no Canindé", já foi publicada aqui no site São Paulo Minha Cidade outra passagem em estádio de futebol.
Abraços.
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