O velho Parque São Jorge

Quando era garoto, nos anos 40, fiquei sócio do Sport Clube Corinthians, pois como já tinha nascido corintiano (meu tio Augusto Felix, irmão do meu pai, tinha sido conselheiro nos anos 30 do clube) completei meu sonho. Usava parte da minha mesada para pagar a mensalidade. O Sr. Jose era o cobrador e vinha de porta em porta cobrar as mensalidades que na época eram bem accessíveis; o número da minha carteira de sócio era 832. Lembro que a sede social ficava em um prédio na esquina da Avenida Celso Garcia com a Rua Maria Marcolina, no Braz.
 
Quantas lembranças tenho desses momentos felizes. Ia ao parque quase todos os dias, pois já tinha completado o grupo escolar. O bonde 7 Penha, ou mesmo o 26 Parque São Jorge, passava na esquina da minha rua. O Penha me deixava na esquina da Celso Garcia e descia a Rua São Jorge até o fim, ou quando passava o bonde Parque ele me levava até lá e não precisava caminhar. Não sei explicar o que acontecia comigo, pois quando descia na esquina da avenida dava uma vontade enorme de correr para chegar logo ao Parque.
 
Lembro que o mesmo acontecia quando ia ver um jogo no Pacaembu, e quando descia do ônibus perto da Praça Charles Miller, embalava em uma carreira, como se o jogo não fosse esperar por mim; lembro também que não era só eu, e todos que desciam do coletivo faziam a mesma coisa, todos em direção às bilheterias como se os ingressos fossem acabar.
 
O parque naquela época era bem modesto, não se comparando com a bela praça de esportes que é hoje. Tinha um armário na parte inferior das arquibancadas do estádio, e lá ficava o departamento do Remo, que era um dos esportes do nosso clube; basta olhar para o distintivo donde se destacam a ancora e dois remos cruzados.
 
Como estávamos localizados ao lado do Rio Tietê, éramos bons no remo, e campeões nesse esporte, assim como o Penhense, o Tietê e o Floresta, que eram os clubes da redondeza e nossos rivais no remo. Era muito comum a gente alugar um barco e remar pela redondeza; os barcos, aliás, já estavam na beirada do rio e a gente pagava pelos remos.
 
Não tínhamos piscina no clube naquela época, e como nas águas do rio ainda tinham peixes eu pescava uns bagres e lambaris de vez em quando. A nossa piscina era o cocho, que era uma armação de madeira que fazia o papel dela. A água do rio era turva, mas mais ainda própria para natação, para nosso deleite, sem comparação com o rio poluído que se tornou alguns anos depois. Tínhamos o convívio com os jogadores que treinavam durante a semana: o goleiro Bino, Domingos da Guia, Servillio, Baltazar, Noronha, Belacosa, Colombo, Mario, Idario Luizinho, Touguinha, Belfare, dentre outros que relembro agora.
 
Lembranças das quadras de basquete em frente à entrada do estádio. Da torre da sirene que era acionada a cada contratação. A biquinha e a fonte que diziam que quem provasse daquela água jamais deixariam de ser corintiano. Muitos pais levavam seus filhos recém-nascidos para serem batizados naquela fonte, eu não cheguei a ser batizado nela porque já tinha nascido corintiano.
 
E da Capela do São Jorge o padroeiro do nosso Timão. Passei momentos inesquecíveis naquele parque. Lembro-me das peripécias que o Mario, o ponta-esquerda, driblador corintiano, fazia na quadra de basquete junto ao time de garotos que ele havia formado e que jogava na várzea de São Paulo; o time tinha um nome, mas não consigo lembrar. Ele era um artista com a bola e parecia que tinha um magnetismo no seu corpo, pois fazia embaixadinhas, levantava a bola, cabeceava, a deixava cair atrás do pescoço, dava de calcanhar e ela voltava aos seus pés sem tocar o chão. Ele era um craque dos bons.
 
O primeiro conjunto de piscinas olímpicas foi inaugurado em 1951, durante a gestão do saudoso Presidente Alfredo Ignácio Trindade. Foi aí que adquiri o meu novo armário, ao lado das piscinas, dando adeus ao velho Cocho que foi desativado. Daí para frente o Parque começou a ser transformado em uma verdadeira praça de esportes com um ginásio maravilhoso, que em um dos andares abrigava a sala de troféus, anfiteatro, restaurantes, salão nobre e hoje o maravilhoso memorial. 
 
O clube perdeu aquela faixa das margens do Rio Tietê e hoje a estrada marginal passa ao lado, separando o clube do rio. Muitas lembranças que ficaram nas minhas memórias desse tempo tão saudoso.
 
Em uma das minhas viagens ao Brasil, isso no tempo do Vicente Matheus, fui com meu grande amigo Osvaldo Tosini, já falecido, que era conselheiro, almoçar no clube e ele me levou na sala do presidente, que nos recebeu muito gentilmente, e fui presenteado com uma coleção de 13 revistas da “Raça Corintiana” que era editada pelo clube naquela época. No andar de cima, na frente do ginásio, visitei a antiga sala de troféus.
 
Em 2008 voltei para visitar o novo museu do clube e fiquei realmente encantado com o que pude ver. Mas não dá para comparar aquele Parque São Jorge que conheci na minha adolescência com essa praça de esportes de hoje. Parabéns ao Sport Clube Corinthians, pela grande remodelação.