O último lampião de gás

Sempre gostei de andar. Já em Campinas, vindo do colégio, saltava do bonde
no centro, e muitas vezes caminhava até minha casa, no bairro do Bosque dos
Jequitibás. Não era uma grande caminhada, talvez um 1 Km, talvez 2.

Assim economizava uns trocados, mas não era este o principal motivo, pois os
sapatos acabavam furando, e o prejuízo era maior que o lucro.

Creio que já era o gosto de andar, de ver pessoas e paisagens urbanas.
Quando viemos para São Paulo, esse costume acentuou-se, pois tinha muito por
conhecer.

Assim, partindo da modesta Barra Funda, nas horas de folga, ou à noite,
subia por Higienópolis, descia a Rua das Pameiras, vasculhava a Avenida
Angélica, chegava até os palacetes do Pacaembu.

Ver aquelas mansões tranquilas, as ruas arborizadas, jardins com fontes e
estátuas, acalmavam minha inquietude, como se quizesse expressar, projetada
na beleza externa, minha necessidade de dar ordem ao meu caos interior.

À vezes, invertia a ordem, e minha rota era pelas ruas da Barra Funda,
olhando as lojas, os armazéns, as oficinas. Cruzava as porteiras, que
naquele tempo existiam, sôbre a linha do trem, e embarafustava-me pela Rua
do Bosque,pela Anhanguera. Para quê?

Para nada,talvez, ou para ver como viviam os outros seres humanos, qual
sentido de sua luta.

Foi numa dessas caminhadas que deparei-me com uma relíquia: um velho lampião
de gás, há muito desativado, no final da Rua Barra Funda, num canto debaixo
do viaduto junto á Av. Pacaembu. Talvez fosse o último de sua espécie, e
sobrevivera até então por mero esquecimento.

Sempre, por muitos anos, tive a curiosidade de saber se o velho lampião
ainda existia. Até que um dia, na busca de papeis para aposentadoria, tive
de ir à imensa repartição burocrática que substituiu a Estação Barra Funda.

Olhei, à distância, por debaixo do viaduto. Isto porque, se do lampião nem
sinal, pelo contrário era bem evidente a ocupação do local por moradores de
rua, com suas roupas comuns dependuradas, toscas tendas de pano e madeira.

Cada vez restam menos coisas belas do passado, por aqui. E se o futuro
estiver representado por essa miséria cada vez maior, invadindo tudo, ai de
ti, São Paulo. Ai de todos nós.