O trem das onze nas minhas lembranças

Minha São Paulo querida, em verso e prosa cantada me faz retornar a infância distante. Do interior, nos meus três anos, adentramos aquele terreno imenso, a casa pequena, terra por todos os lados, tal qual uma ilha. Era a década de 50.

Que imenso terreno para nossas aventuras – meu irmão, ano e meio mais novo, e eu – em meio ao verde, as árvores frutíferas que se erguiam altaneiras com seus frutos deliciosos: manga, abacate, mamão, ameixa. Ah!

Na ameixeira, o balanço atribuía o compasso às canções, as quais, a todo pulmão de criança, me acompanhava num ritmo frenético do vai e vem da corda dependurada em seus fortes galhos. Canção Criança Feliz, minha predileta.

Jaçanã, o trem que passava próximo à casa fora eternizado por Adoniran Barbosa e os Demônios da Garoa que, até hoje, entoam e deleitam seus fãs – inclusive esta que escreve. Sim… "Moro em Jaçanã…".

Nossas poucas vizinhas, duas de origem oriental (pelo menos os pais) mal falavam o português, mas nossas brincadeiras eram envolventes; outras duas eram de origem alemã; pudemos nos divertir muito em meio ao roçar a terra, a plantar, imaginando-nos jardineiros.

A mudança, contudo, leva-nos a outro bairro: Tucuruvi, Rua Maria Antonio, próxima do ponto final do ônibus. A escola, Externato Santa Cristina; depois o Ginásio Neo Latino – novos amigos, novos objetivos.

No sobrado, as frutas amadurecidas e colhidas no pé já não fazem mais parte de nosso cardápio. As amigas, jamais as pude encontrar; apenas um nome – Neide – e uma foto me ficaram à lembrança, para rememorar e contar.

O apito do trem que direcionava a hora, a cancela, as festas juninas no quintal, os balões bailando no ar, as noites frias, já não mais se podia ouvir do sobrado. Os balões escassearam, as noites já não eram mais tão frias. Mal supor pudera, quantas mudanças mais me aguardavam.

"Minha São Paulo, calma e serena", embora pequena, já se manifestava grande demais. E o lampião de gás, quanta saudade você me traz.

Agora eu cresci, mas minha colheita de lembranças não envelheceu e se tornou mais viva ao se eternizar nestas linhas.

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