Naquela noite quis fazer uma surpresa. Em lugar do cinema e em seguida o jantar, num restaurante modesto ou numa aconchegante cantina do Bixiga, apareci com dois ingressos para o teatro. Ouvira boas referências da peça e do autor, diziam ser um novo Nelson Rodrigues.
Minha companheira, jovem bonita e inteligente, simples, e educada sob a rígida disciplina de colégio dirigida por freiras, era, todavia, um tanto inocente quanto às coisas da vida e do mundo.
A peça se chamava Navalha na Carne, de Plínio Marcos. Quem conhece o texto sabe que toda ação se desenrola num quarto de prostíbulo e tem três personagens: um rufião, uma prostituta e um homossexual. Os diálogos são densos, cortantes e contundentes. Percebi, à medida que a trama se desenvolvia, o desconforto de minha amiga, e em determinados momentos suponho que ela chegasse a enrubescer. Eu também não me sentia à vontade e torcia para que aquele pesadelo chegasse ao fim…
Terminado o "sofrimento" fomos para o jantar. Durante algum tempo não trocamos palavras, até que, enchendo-me de coragem, perguntei-lhe o que achara da peça. A resposta foi lacônica e definitiva: – Detestei e dispenso esse tipo de diversão. Prefiro voltar aos filmes e aos cinemas.
A peça logo em seguida foi censurada pelo governo militar – 1967 (?) – e só voltou ao cartaz muitos anos depois. Fui vê-la de novo. Desta vez, sozinho!
Estas reflexões vieram-me depois de assistir a alguns capítulos de certas novelas, no chamado horário nobre, nas quais se explora homossexualismo, lesbianismo, prostituição e adultério com a maior naturalidade e descontração. Fico então a pensar que nos dias de hoje nada mais nos choca ou nos escandaliza, e Navalha na Carne poderia ser encenada, tranquilamente, para uma platéia de padres capuchinhos ou irmãs carmelitas. Não causaria o menor constrangimento, embaraço ou timidez..
O tempora! O mores! (Cícero)
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