O tempo passou, mas eu não esqueci…

Nasci no ano de 1956, em Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo. Foi onde passei os momentos mais incríveis e inesquecíveis de minha existência até hoje.

Entretanto, devido a uma ótima oferta de emprego de meu pai, mudamos para o bairro de São Judas Tadeu, em 1963, e ficamos lá até 1971. Mesmo assim íamos quase que todos os finais de semana pra Parelheiros. Ficávamos na casa de minha avó materna e quando chegávamos era sempre uma festa.

Bem, chegando ao bairro São Judas, logo no ano seguinte, comecei a estudar na escola estadual Almirante Barroso, próximo à Igreja. Foram quatro anos tranquilos; o primário tirei de letra, lembro-me que naquela época para ingressar no ginásio, tínhamos que fazer uma espécie de estágio, era o 5º ano, o qual fiz ali perto numa escolinha na Rua Nereu Ramos, bem em frente à casa onde morava o Sr. Manoel da Nóbrega, da Praça Da Alegria, programa humorístico que passava na TV Record.

Lembro-me, que muitas vezes, nas tardes, ele se sentava em uma cadeira de balanço e ficava brincando com seus cães, que eram iguaizinhos ao do seriado de TV lassie. Neste momento nossa professora, dona Maria Barbosa, chamava-nos até a janela, pois a sala era na parte de cima, e fazíamos um aceno para o Sr. Manoel que com um grande sorriso e simpatia nos retribuía. Era como se estivéssemos na praça com ele.

Bem, ali em São Judas, como em todos os lugares até hoje, existem aquelas turmas formadas pelos garotos da rua de cima, outros da rua de baixo e assim vai. Eu era da turma da Ceci, (Avenida Ceci, onde morei), outros eram da Nereu (Rua Nereu Ramos), outros a turma do campo, outros a turma da igreja, etc. As brincadeiras que nós promovíamos na época, eram a de jogar futebol na rua, bater taco, bater pic, estrela nova sela, jogo de cartas, rodar pião, etc.

Sei que o futebol na rua era o que mais disputávamos. E foi numa dessas disputas que, de repente, apareceu um fusca de cor verde e parou no meio da rua entre os dois gols. E nada mais, nada menos desce o Ronald Golias, daquele jeito brincalhão, pega a bola, sai driblando todo mundo e faz o gol de um lado , parte pro outro lado e também faz o gol! Depois pega a bola e a coloca no meio do campo, puxa um apito do bolso e apita, entra no fusca e vai embora. Foi muito engraçado! Eu ainda não tinha presenciado tanto movimento de pessoas naquela rua, a qual era muita tranquila. Parecia até que havia um script já pronto, assim como se estivesse tudo programado.

Outra coisa que aconteceu, e essa foi diretamente comigo. O Sr. Carlos Alberto de Nóbrega. tinha uma neta, garota muito bonita, e quando ela estava na casa dele, e nos a víamos, ficávamos mexendo com ela. Em uma dessas o Carlos Alberto de Nóbrega saiu correndo atrás de nós. Eu me escondi dentro de um bar, mas ele me achou e queria de todo jeito me levar em casa pra falar com meu pai. Eu em prantos dizia que nunca havia mexido com ela, e ela vendo meu desespero, acho que ficou com pena e disse ao tio, que eu não estava com os garotos. Só então o Carlos Alberto me deixou ir.

Hoje eu conto essa passagem para os meus filhos e nós rimos muito! Só não consigo me lembrar do nome da neta do Sr. Manoel de Nóbrega, só sei que ela era sim muito bonita.

Aí então começo o ginasial, e fui estudar na escola estadual Cidade Vargas, hoje Cacilda Becker, em frente a estação final do metrô Jabaquara.

Bem, ali conheci um garoto que atendia pelo apelido de Cebion, pois ele fazia parte de um comercial de TV da época: Em uma sala de aula, um garoto espirrava ( -“Atchim”), e os outros respondiam –“ Cebion!”. O primeiro que aparecia na tela era ele, por isso o apelido.

Esse mesmo garoto, por coincidência, tempos depois veio a Parelheiros, em uma festa de aniversário na casa de um amigo, qual chamávamos de Cinturinha. Tive então a grata satisfação de saber que meu amigo Cinturinha era tio do garoto famoso da escola onde estudei. Eu e o Cebion relembramos, com saudades, algumas passagens do tempo de escola e rimos com acontecimentos engraçados que aconteceram conosco lá.

Nessa escola, acabei me juntando a “turma da bagunça”, na qual havia algumas meninas. Eu me engracei com uma japonesinha, Jandira Tamiko. O engraçado é que nem eu e nem ela tínhamos beijado alguém. Naquela época rolava uma brincadeira que : beijo, abraço ou aperto de mão. Alguém tapava os olhos da pessoa e perguntava se ela escolhia a pessoa tal, e de repente, ela sem saber me escolheu! Me senti totalmente realizado, principalmente quando ela disse que queria beijar…

Estava então para acontecer o primeiro beijo meu e dela. E aconteceu! O beijo foi longo, parecíamos dois profissionais… Resolvemos dali por diante não mais participar da brincadeira, mas de vez em quando o pessoal pedia pra gente repetir o beijo, que ficou como uma marca registrada da brincadeira.

Porém, devido às bagunças, brigas e faltas nas aulas, ano de 1969, fui convidado a procurar outra escola… Fui parar na escola da Vila Fachini, e lá cheguei com fama de encrenqueiro e brigão, mas estava sozinho, a turma da bagunça já não existia.

Foram tantas as vezes que apanhei dos garotos, pois não ficava calado e tentava me impor. Em umas dessas brigas que conheci minha 1ª eterna namorada, a Verinha. Ela morava próximo ao final da Rua Fachini e tinha duas irmãs, Sonia e Ana, que se tornaram cúmplices e amigas, nos momentos que me senti sozinho e desprotegido.

Verinha é uma das coisas boas que aconteceram em minha humilde existência. Sinto muitas saudades dos momentos que estivemos juntos. As vezes fecho os olhos e me transporto para aquela realidade, pois quero aqueles momentos vivos em minha memória. Foram bons momentos! Penso que os bons momentos vividos fazem bem a saúde.

Grande parte de minha adolescência e juventude, passei em Parelheiros. Conheci muitas pessoas, me casei, vieram os filhos, mudei e voltei. Hoje coleciono muitos amigos e posso dizer que foi realmente a melhor parte de toda essa minha existência até hoje.

Mas, a parte de minha adolescência e juventude que passei no bairro São Judas e principalmente nas escolas, cidade Vargas e Vila Fachini, me marcaram muito, e são boas recordações.

Queria poder reencontrar essas pessoas que fizeram parte desses momentos em minha vida, e criar uma praça onde todos nos pudéssemos sentar e contar as histórias da vida e também criar as próprias estórias.
Hoje, quando assisto ao programa, "a praça é nossa" e vejo o Carlos Alberto de Nóbrega, sentado naquele banco, me vem na lembrança do seu pai, Sr. Manoel de Nóbrega, sentado naquela cadeira de balanço brincando com os cães e sorrindo prá nós. Possuía uma simpatia que anunciava uma alegria contagiante nos deixando eufóricos na janela da escolinha da professora dona Maria Barbosa. Ele Fazia-nos sentir muito importante. Fico feliz também por ter o privilegio de ter estado bem pertinho de um dos maiores comediantes da TV brasileira, Ronald Golias, que brincou conosco como se fosse um dos garotos da nossa turma.

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