O que levaria o Orlando até a Consolação naquela noite após o expediente? Fiquei intrigado. Mas aceitei o convite e acompanhei-o.
O trajeto para mim bem conhecido, pois ia com frequencia a Alameda Jaú. Mas o Orlando morava no bairro do Limão. Descemos do bonde depois do cemitério da Consolação, e caminhamos a pé até aquele antigo armazém de secos e molhados na esquina da Maceió.
O aspecto do lugar era desolador. A decadência visível nas teias de aranha do teto de madeira enegrecido pelo tempo. Lâmpadas morteiras iluminavam apenas o essencial. Algumas cadeiras espalhadas ao léu eram casadas com duas mesas num amplo espaço. As prateleiras vazias denunciavam o descuido e o aviso que nada tinham a ofertar.
O Orlando chegou até o balcão e chamou pelo nome. Minutos depois apareceu um homem desgrenhado de aparência apática e com ares de sofrimento. Trocaram algumas palavras em tom baixo que eu não ouvi. Minutos depois ele serviu-nos café com leite.
No caminho de volta o Orlando esclareceu o que me intrigava. O homem fora um abastado comerciante. Mas sem que ninguém soubesse a sua mulher padecia de doença insidiosa, que aos poucos foi consumindo toda a sua fortuna. Chegou à falência em tudo. Até no ânimo. O Orlando o visitava regularmente, pois fora seu empregado nos bons tempos.
Por muito tempo acompanhei a degradação do prédio, e por fim o fechamento das portas. Mas nada soube, porque perdi de vista o Orlando.
Trinta e sete anos depois voltei ao mesmo local, com o prédio restaurado e um movimentado restaurante com a especialidade em bisteca. Em pouco tempo o lugar ficou famoso, mas o nome permaneceu: "Sujinho".
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