No dia 18 de setembro entra no ar pela primeira vez as imagens de televisão.<br>Era a PRF 3 TV Tupi, de São Paulo.<br>Nessa época, éramos o quarto país do mundo a ter televisão, inventada havia quatorze anos.<br>O autor do milagre, daquela época foi Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, proprietário dos Diários Associados, cadeia de jornais e emissoras de rádio. Para financiar seu empreendimento, Chateaubriand conseguira em 1947 contratos com a seguradora Sul América, com a Antártica, a laminação dos Pignatari e o Moinho Santista. Essas empresas pagaram adiantado um ano de publicidade, a cadeia dos associados fornecendo parte dos 16 milhões de cruzeiros pagos à RCA Victor norte-americana pela compra de uma estação de TV. Chateaubriand importou também trezentos aparelhos televisores, que foram vendidos pelas lojas Cássio Muniz. Em meados de 1950, chegou o equipamento da TV Tupi, canal 3, de São Paulo, acompanhado pelo engenheiro Walter Obermiller, da RCA americana, que orientou a equipe de técnicos brasileiros, chefiada por Jorge Edo e Mario Alderighi. No dia 28 de julho, foi feito um teste no prédio dos Diários: a primeira imagem desse “circuito fechado” foi a do frade-cantor José Mojica, ex-ator de Hollywood. O primeiro programa a ser transmitido ao público chamava-se “TV na Taba” e ficou marcada para o dia 18 de setembro, às 21 horas a inauguração da primeira televisão brasileira.<br>O estúdio foi montado no prédio da “Cidade do Rádio”, sede da Rádio Tupi, no alto do Sumaré. A transmissão começou com uma hora de atraso, devido à falha de uma das câmeras. O técnico Obermiller propôs que se adiasse a transmissão para o dia seguinte. Os brasileiros insistiam em “improvisar” com as câmeras restantes, e Obermiller, contrariado, retirou-se. O programa acabou indo para o ar na base do “jeitinho”, apresentado por Homero Silva. O apresentador recebia dois visitantes, explicando-lhes a utilidade da TV; levava cantores para dentro dos lares (e podia-se ver Lolita Rodrigues cantando o hino da televisão); fazia rir (numero cômico de Mazzaropi), podia mostrar o esporte (Aurélio Campos falou de futebol); divulgar o teatro (com Valter Foster e Lima Duarte) etc.<br>Às 23 horas quando terminou o programa, a equipe da Tupi, que o havia ensaiado durante vinte dias, encontrava-se em angustiante problema: o que fazer no dia seguinte? Nada havia sido preparado.<br>Nota: Na inauguração da TV Tupi de São Paulo, Hebe Camargo deveria cantar o Hino da televisão, com música de Marcelo Tupinambá e letra de Guilherme de Almeida. Mas um “resfriado” tirou a cantora do programa e foi Lolita Rodrigues quem interpretou a canção:<br>“Vingou, Omo tudo vinga, / No teu chão, Piratininga, / A cruz que plantou. / E Dir-se-á que ela hoje acena, / Por uma altíssima antena, / A cruz que Anchieta plantou”.<br>Como havia apenas cinco possuidores de televisores em São Paulo, Chateaubriand espalhou alguns aparelhos em pontos estratégicos da cidade, como na Praça da República e no Jockey Club.<br>“Saudamos a todos da América do Sul, / a terra onde o céu é sempre mais azul / saudamos a todos, amigos de coração. / e (…) relembramos / ao cantar esta canção.” (canção inaugural das programações da TV Tupi).<br>A improvisação marcou o início da TV. Na noite do dia seguinte à inauguração da Tupi, foi levado ao ar o primeiro telejornal. “Imagens do Dia”, escrito por Rui Resende minutos antes da transmissão. <br>Profissionais vindos do rádio, cinema, teatro e jornalismo começaram a aprender televisão, em permanente luta contra o tempo. As transmissões eram feitas ao vivo, pois não havia o videotape. Entre os programas, eram transmitidos filmes de 16 mm (documentários cedidos por consulados). No começo não havia filmes publicitários. As garotas-propaganda apresentavam ao vivo os produtos dos patrocinadores. A primeira dela foi Rosa Maria, que fazia comerciais para a Marcel Modas, no programa humorístico “A bola do dia”. A pressa fazia as moças cometerem gafes: num comercial da Probel, por exemplo, a garota devia demonstrar a “facilidade” com que o sofá se transformava em cama. Diante das câmeras, porem, o sofá enguiçou. Depois de uma autêntica luta livre entre a moça e o sofá, veio um bombeiro ajudá-la. E só então aconteceu o “milagre”. Devido ao pequeno número de televisores (e de telespectadores), as propagandas nesse veiculo eram muitas vezes oferecidas como brinde aos anunciantes da cadeia dos associados.<br>A programação da Tupi ia ao ar das 18h às 23h. Havia circo com os palhaços Fuzarca e Torresmo, contratados ainda em 1950. Em 1951, surgiu “Circo na TV”, apresentado por Walter Stuart e patrocinado pela BomBril. Os primeiros Shows também ficaram na memória dos telespectadores. É o caso do “Desfile Musical Jardim”, produzido por Ribeiro Filho. Artistas estrangeiros também faziam sucesso, como a “rumbeira” cubana Rayito de Sol. Durante sua transmissão, a diretoria da Tupi recebeu um telefonema da família Whitaker, anunciante dos Associados, reclamando dos “requebros indignos de entrar em casas de família”. Imediatamente, Chateaubriand deu a ordem: os requebros foram substituídos pela imagem de Dom Pedrito, responsável pelo batuque. Rayito de Sol foi mostrada a distância. “A família Whitaker manda”, relembrava Dermival Costa Lima.<br>Quanto aos cantores brasileiros, alguns telespectadores se lembram da cena em que Hebe Camargo e Ivon Curi, com rosto colado, entoaram com olhar maroto: “Que beijos nós vamos trocar! / Não tem ninguém por perto, / E a noite é de luar…” Cassiano Gabus Mendes dirigiu o primeiro teleteatro, adaptando o enredo do filme norte americano “A vida por um fio”. Nessas apresentações ao vivo, se alguém se atrapalhasse, nada podia salvá-lo. Foi o caso de Alberto Maduar e Nelson Coelho, que certa vez representaram um duelo. Dando um passo em falso, um deles derrubou o cenário veneziano. O cameraman desviou-se do desastre e procurou focalizar em um close só o rosto dos dois atores. Mas eles estavam tendo um acesso de riso… de nervoso.<br>Walter Foster e Vida Alves protagonizaram a cena que os “teventes” (termo da época) aguardavam com ansiedade. O primeiro beijo da história da televisão brasileira… Ele a pegou nos braços, atraiu-a para si e beijou-lhe a boca. ”Beijinho insosso”, diria mais tarde o galã, “de boca fechada, sem demorar muito”. Mas um beijo, de qualquer forma. A cena se passava na primeira telenovela da Tupi, “Sua vida me pertence”, começada a 21 de dezembro de 1951. Apesar do número reduzido de capítulos (entre 15 e 20), a novela, apresentada duas vezes por semana, despertou o entusiasmo do público. No ano seguinte, a emissora inaugurou um novo programa, o “TV de Vanguarda”, idealizado por Cassiano Gabus Mendes para divulgar os clássicos da literatura mundial.<br>A televisão da época era feita para a elite, o que explica o grande número de teleteatros. De alto nível. Havia também o “Sítio do pica-pau amarelo” de Monteiro Lobato, adaptado por Tatiana Belinsky e dirigido por Julio Gouveia. Em 1957, surgiria um programa de ficção científica para crianças: “Lever no Espaço”. Mas nem só de teatro vivia a Tupi. Havia ainda o “Almoço com as Estrelas” apresentado por Airton Rodrigues; o seriado “Alô Doçura” (no espírito do programa norte-americano “I Love Lucy”, com John Herbert e Eva Vilma, primeiro casal da televisão brasileira; “Rancho Alegre”, onde apareciam Mazzaropi e Abelardo Barbosa (o Chacrinha) e “Revista São Luis”, que tinha no seu cast Bibi Ferreira.<br>No campo do jornalismo havia o “Repórter Esso”, o “Mappin Movietoni” o “Imagens do Dia” e o “Edição Extra”, este último apresentado por Mauricio Loureiro Gama e José Carlos de Morais (o tico-tico), diariamente ao meio dia. De todos os programas, porém, o de maior público era o “O Céu é o Limite” (1955), apresentado por Aurélio Campos. Consistia em perguntas formuladas a um “sabe-tudo” de algum assunto. As questões valiam prêmios em dinheiro que iam sendo acumulados à medida em que o candidato desse respostas corretas.<br>Um único erro afastava-o do programa. O candidato podia abandonar o programa quando quisesse e nesse caso levava o prêmio acumulado. Em meados de 1956, Paulo Sergio da Fonseca, respondendo sobre Atletismo, abiscoitou o prêmio de 160.000 cruzeiros.<br>Com o aumento do público de TV, os patrocinadores começaram a fazer maiores investimentos em publicidade (em 1956, a Votorantin gastava 300.000 cruzeiros mensais em “O céu é o Limite”). Em 1953 a vedete Mara Rubia ganhava 25.000 cruzeiros na Tupi de São Paulo e outro tanto na Tupi do Rio.<br>O pioneirismo de Assis Chateaubriand logo foi imitado por alguns outros empresários paulistas. Em 1952 surgia a TV Paulista, canal 5; em 1953, a TV Record, canal 7, e em 1958 a TV Cultura, canal 2. A TV Paulista contratou Ruggero Jacobbi que trabalhava com Franco Zampari no TBC, para ser o superintendente da estação. Aos domingos, a equipe de Gilberto Martins levava ao ar “O circo do Arrelia” e, logo em seguida, o “Clube do Guri”, dirigido por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Havia também o “Teledrama Três Leões”, dirigido por Walter Foster, nos moldes do “TV de Vanguarda”, da Tupi.<br>A TV Paulista fazia também transmissões de futebol. Luiz Guimarães conta que muitas vezes foi obrigado, num mesmo dia, a fazer locução de campo e de estúdio: “Como a TV Paulista ficava ali na esquina da Avenida Paulista com a Consolação, eu fazia a locução de estúdio, esperava um intervalo, e corria até o estádio do Pacaembu para fazer uma ou duas entrevistas e depois voltava ao estúdio”.<br>Em 1953, Victor Costa, ex-diretor da Rádio Nacional do Rio, comprou a TV Paulista. Com sua experiência em rádio, transferiu os estúdios para um amplo cinema na Rua das Palmeiras, levando o equipamento técnico. De lá seria transmitido um dos mais famosos programas humorísticos da TV: “A Praça da Alegria”, com Manoel de Nóbrega e Ronald Golias. Foi nesse programa que surgiu o “esquentador de auditório” Silvio Santos. Em outro programa, Hebe Camargo cantava sobre um palco giratório que imitava um disco (com agulha gigante e tudo), sobre o qual dançavam coristas. Mas estas, com medo da “agulha”, saltavam para fora do palco a cada volta. Às gargalhadas, a cantora interrompia o número. Foi quando Leandro de Castro gritou lá de baixo: “Hebe, pelo amor de Deus…”.<br>Quanto à TV Record, não enfrentou grandes dificuldades no começo, pois se apoiava no sucesso já alcançado pela Rádio Record. Foi no canal 7 que Maysa Matarazzo estreou, num programa onde se apresentavam grandes nomes da música popular, como Izaura Garcia, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso e o conjunto Farroupilha. Algumas vezes a TV Record conseguia romper o monopólio de audiência da Tupi. Isso aconteceu, por exemplo, quando em 1957 transmitiu com exclusividade, do Ginásio do Ibirapuera, um show com Louis Armstrong e Ângela Maria. <br>Em janeiro de 1958, a TV Record transmitiu a luta exibição entre o Brasileiro Luiz Inácio (Luisão) e o norte-americano Archie Moore, campeão mundial de boxe. Na transmissão, Sérgio de Andrade (Arapuá) fazia charges. Ao final do primeiro assalto ele fez Luisão pular vibrando por não ser derrubado pelo grande campeão.<br>Outras programações também marcaram o telespectador paulistano, como “Preto no Branco”, de entrevistas políticas, e o “Capitão sete”, de aventuras. No intervalo dos programas, as garotas-propaganda faziam comerciais ao vivo. Na abertura do tele-teatro, que apresentou uma adaptação de Doutor Jivago, de Boris Pasternak, uma delas anunciou com doçura: “Alô, meu nome é Wilma Chandler. Sou garota propaganda aqui do Canal 7, mas sou também uma futura dona de casa. Sim, porque brevemente me casarei. E nos planos que sempre fazemos para o futuro, conversamos sobre diversas coisas que vamos precisar para nossa casa. Numa coisa, entretanto, já chegamos a perfeito acordo: A nossa geladeira deverá ser GE e comprada na Eletrolândia”.<br><br>e-mail do autor: [email protected]