O saci pererê na Penha

Eu morava com minha família na Rua Tuapé, travessa da Rua Caquito, quando o chão ainda
era de terra, pois o asfalto não tinha chegado em 1960.

Tínhamos um cavalo castanho, para carretos na vizinhança. Acontece que toda manhã ele aparecia suado e com a crina toda trançada. Meus pais diziam que era obra do saci pererê.
Um dia fiquei acordado a noite inteira para ver se o saci aparecia por ali.

Da janela fiquei a espreitar o quintal, que tinha muitas arvores e era muito escuro. Demorou umas 3h e o cavalo surgiu galopando com um menino, que não dava para ver direito. Fiquei ali assustado e fui chamar meu irmão, o Euclydes. Ele demonstrando muita coragem, abriu a porta da cozinha que dava para o quintal e foi até o fundo procurar o cavalo, fui atrás.

Quando chegamos no canto do muro, ali estava o cavalo todo suado. Trepado na ameixeira estava um menino de uma perna só, que se chamou de Nerinho. Perguntamos onde ele morava, respondeu que no campo do Jaú. Perguntamos onde ficava e ele respondeu no penhense, onde o pai Jaú ficava e abrigava os sacis.

Voltamos eu e meu irmão para dentro da casa para chamar meu pai e meus outros irmãos mais velhos, e, quando voltamos, nada de saci, só o cavalo, cansado e suado de tanto galopar e com a crina toda trançada. No dia seguinte, no chão havia muitas ameixas mordidas pelo menino na noite anterior. Nunca mais vimos o Nerinho.

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