Uma das coisas mais marcantes da minha infância foi o rádio de casa. Não era o famoso "Capelinha", que via nas casas dos meus amigos, mas era igualmente de caixa de madeira brilhosa, muito bem envernizada, uma tela de tecido escondendo o alto-falante, dois botões grandes, um de sintonia e o outro de volume, com o dial em vidro que, ao ligar, iluminava e mostrava os números escalonados das estações: ondas curtas, médias e longas. Não sei por que tinha todas essas escalas, pois só pegava as ondas médias. Acho que era para nos impressionar com todos aqueles números.
Demorava um pouco para começar a funcionar, pois tinha que esquentar as válvulas. Já havia os modelos de caixa plástica, baquelite, mas o nosso era ainda de madeira. Pelo tamanho, era quase um móvel a compor um ambiente de nossa sala, contrapondo-se com a televisão recém-adquirida, do outro lado da sala.
Esse convívio, tv-rádio, lá em casa, sempre foi relativamente tranqüilo. Eles se revezavam. Cada um tinha o seu horário de atividade. O rádio dominava o dia. A tevê tomava conta do início da noite. Era ligada por volta das dezoito horas, quando estávamos chegando da escola. Coincidia com o início das transmissões da programação diária.
Havia um programa infantil, que era patrocinado pelo Bolo Pullman e tinha um tal de "Zé Fofinho". "Boa noite, Zé Fofinho!!!". Eu não deixava de assistir ao meu programa "Pim pam pum", patrocinado pelos brinquedos Estrela. Era composto de desenhos animados e uma animadora (acho que era a Neide Alexandre) tipo "Angélica", com crianças presentes no auditório, não muito diferente dos programas infantis atuais. Tinha o Arrelia e o Pimentinha, palhaços que todos nós gostávamos.
Depois desse programa, passava o noticiário. Era o "Seu Repórter Esso", competente jornalismo televisivo que marcou época, com âncoras de respeito. Eron Domingues e Kalil Filho. Lembro-me bem do Eron Domingues dando a notícia da morte do Presidente Kennedy. A narrativa cheia de emoção, com certeza, é um dos marcos do jornalismo brasileiro. Fizeram escola. Foram os mestres inspiradores do Cid Moreira, acredito eu.
Depois do noticiário, vinha a novela. "O Direito de Nascer" foi um dramalhão de grande sucesso, que fez muito marmanjo chorar. Eu, como era muito pequeno, não a acompanhei, pois criança naquela época ia pra cama cedo, ao som da propaganda dos cobertores Parahyba: "Tá na hora de dormir, não espere mamãe chamar…".
A programação da tevê acabava relativamente cedo. Não me recordo ao certo, mas acho que não passava das onze da noite, com algum programa de humor. Esses primeiros programas humorísticos foram transplantados do rádio para a televisão. Um deles chamava-se "Praça da Alegria". Era encabeçado pelo Manoel da Nóbrega, pai do Carlos Alberto Nóbrega, que herdou a praça, digo o programa, e rebatizou-o democraticamente de "A Praça é Nossa", no canal do Silvio Santos, que um dia foi sócio do Manoel da Nóbrega, no Baú da Felicidade… Que confusão!
No tardar da noite, voltava o rádio a funcionar, pelo menos em casa. Meu pai, que tinha sido músico de banda, gostava muito de ouvir a Rádio Bandeirantes, em que havia o programa "Bandas e marchas de todos os tempos", apresentado pelo Morais Sarmento. Eu, embora deitado na cama, acabava também ouvindo os acordes das composições marciais, os hinos de John Phillip de Souza, tocados por bandas de todos os cantos do Brasil que pairavam e tomavam conta de todos os cômodos de nossa casa, nas etéreas ondas sonoras.
Na manhã seguinte, lá estava novamente o rádio ligado, irradiando seu som junto com o cheiro do café passado no coador de pano. Era o noticiário matinal com o Salomão Esper, igualmente na Bandeirantes. E, salvo engano, vinha depois "A Hora do Trabuco", com o Vicente Leporace, com seus comentários críticos dos atos do governo, uma versão original do Boris Casoy. Creio que esse noticioso era um dos de maior audiência nas barbearias. Pelo menos na que meu avô cortava o cabelo e fazia a barba, o rádio estava sempre ligado nesse programa. Parecia até que o Vicente Leporace conversava com os barbeiros e seus clientes.
E assim, cada um tinha o seu espaço e importância, o rádio e a televisão. E nós, assíduos ouvintes e telespectadores, acabávamos amando muito tudo isso!!!
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