O que houve com a Conselheiro?

Passar naquela rua era muito bom. Trabalhar nela, melhor ainda, coisa que eu fiz durante seis anos. O quarteirão entre a Praça Ramos de Azevedo e a Rua Sete de Abril era encabeçado pelo então gigante Mappin, sempre lotado em qualquer época do ano e, do lado oposto, por uma loja de moda feminina. 
 
Caminhando em direção à Rua Sete de Abril, um bom número de vitrines, incluindo a da lateral do Mappin, fazia desfilar diante dos nossos olhos uma grande variedade de produtos, mas o ponto forte da Conselheiro era o comércio de equipamentos fotográficos, de som, de cinema (o filme Super 8 vivia sua fase áurea na década de 70), além de excelentes lojas de ótica e bancos. 
 
Os restaurantes Três Razões, Gironda, América e Atlântico tinham clientela garantida por conta dos funcionários das lojas e escritórios locais e do público em geral, pois o comércio era intenso naquele trecho da Rua Conselheiro Crispiniano, que até metade da década de 70 não era calçadão como é hoje, e o tráfego fluía no sentido Avenida São João.
 
Uma figura bem conhecida e muito simpática que também trabalhava naquele quarteirão era a de um senhor armênio, de aproximadamente sessenta anos, que vendia esfihas abertas, em um minúsculo espaço que ele alugara à porta do restaurante Três Razões. Todas as manhãs, a caminho do trabalho, eu me deliciava com pelo menos meia dúzia daquela iguaria, enquanto ouvia, com prazer, aquele simpático senhor falar um pouco de sua vida na Armênia. De seus lábios, ouvi muitos exemplos de honra e dignidade, além de ter aprendido algumas palavras e frases em seu idioma.
 
Apesar da minha preferência por aquele quarteirão da Conselheiro, o trecho abaixo, ou seja, da Praça Ramos até a Avenida São João, tinha bons atrativos também. Além das lojas menores, a enorme loja de roupas Piter, com sua fachada colorida e super iluminada por inúmeras lâmpadas, conquistou uma enorme clientela entre o público jovem, através de uma infinidade de roupas "na crista da onda", como se dizia então. Pouco abaixo da Piter, o imponente Cine Marrocos, com sua sala muito confortável e um mezanino, o "pulman", exibia excelentes filmes, muitos deles lançamentos "fresquinhos” da indústria cinematográfica.
 
Mas… o que houve com a Conselheiro? De vinte anos para cá aproximadamente ela sofreu uma modificação. Para pior, infelizmente. Lojas tradicionais foram fechando suas portas. Na melhor das hipóteses, algumas deram lugar a outras, menores e pouco, ou nada, conhecidas. Mas muitas portas permanecem fechadas. 
 
Pichações e cartazes oferecendo serviços, nas portas e paredes, proliferaram, poluindo visualmente um local outrora próspero e elegante, conferindo-lhe um clima de decadência. Hoje, ao passar pela Conselheiro, eu me pergunto continuamente e com um pouco de tristeza: o que causou tamanha transformação? O que deu errado na Conselheiro? Paro alguns segundos e olho, com profunda saudade, os locais onde, por muitos anos, funcionaram a Fototica, a G. Aronson, a Colorcenter, a Cinótica, a Akopol, o Mappin e os restaurantes mencionados, nos quais sempre me alimentava com comida simples e bem feita.
 
Que saudade de tudo isso!