Quando eu morei na Rua Dom Duarte Leopoldo no Cambuci, por volta de 1962 ou 1963, por pouco não me tornei ator de cinema. Havia na rua o casarão das espanholas, onde viviam a matriarca Dona Inês e todas as suas filhas, a maioria casadas. A casa era dividida em várias casas menores e cada filha casada vivia em uma delas. Havia um pátio central onde eu ia brincar de bola com o Claudinho, filho da dona Cármen, uma das filhas. Um belo dia, um tio do garoto, o Jurandir, veio conversar comigo a respeito de uma série de filmes para TV que ele pretendia fazer e eu tinha o perfil exato que ele queria. Naquela mesma noite ele foi à minha casa pedir autorização para os meus pais. Eu faria o papel de um escoteiro. No primeiro filme eu teria a missão de salvar o Claudinho, que fugira de casa e entrara em um túnel de trem para se esconder e eu o salvaria de ser atropelado. Íamos filmar todos os domingos no Horto Florestal onde passava o trenzinho da Cantareira. As cenas do túnel foram filmadas na Serra de Santos nos trilhos da EF Sorocabana. Não sei se por falta de dinheiro ou por desentendimento entre produtor e diretor, o projeto não foi adiante. O primeiro e único filme ficou pronto, mas eu jamais o vi, porque no ano seguinte fui para o Interior morar com minha irmã. Foi uma experiência muito divertida, mas falando sério eu nunca achei que levava jeito para ser ator, eu era muito tímido.
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