Minha família estava em festa e o casamento já estava marcado na Igreja Nossa Senhora da Penha. Eu era pequena, mas consegui acompanhar todas as fases de arrumação do quarto de noiva da minha irmã mais velha. Que lindo ficou depois de pronto, muito parecido com um quarto de princesa. Os móveis eram todos com detalhes trabalhados em alto relevo na cor marfim. Completo, ele compunha os dois guarda-roupas (um grande e outro menor), uma penteadeira com um lindo espelho de moldura também trabalhada, uma cômoda, cama, colchão e mais dois criados-mudos.
Depois que os móveis estavam no seu devido lugar e tudo bem limpinho, minha irmã se preparava para decorá-lo. Pensava-se no lustre, no abajur, na colcha do dia, nos tapetes e tantos outros apetrechos que usavam, na época, para a decoração. Tudo era escolhido com detalhes pela noiva, minha irmã e pela minha mãe, sempre disposta a atender seus pedidos. Recordo que sobre a penteadeira havia o tradicional conjunto de pentear em porcelana pintada, composto pelo espelho de mão, escova de cabelo, pente, suporte para os perfumes e um pote para o pó de arroz com uma esponja decorada com fita de cetim, acho que era mais para enfeitar do que ser usado.
A colcha do dia, peça importante do quarto para a noiva, foi comprada de um ambulante que batia de porta em porta vendendo enxoval. Ela era toda rosa de organdi com bordados de sombra, fitas de cetim e acabamento em rendinha, sendo que abundantes babados de cetim cobriam os lados da cama. Lembro que era de costume deixar sobre a cama uma boneca linda dando um toque final. Minha irmã, como trabalhava no Centro de São Paulo achou por bem comprar uma em uma loja lá do Centro. Toda noiva tinha em seu quarto esta boneca sobre a cama quando se casava e era feita especialmente para enfeitar o quarto das noivas. Na verdade, não sei bem porque as bonecas tinham que ser colocadas sobre a cama, talvez tivesse outra razão que desconheço. Antigamente, quem confeccionava as cortinas eram as pessoas da família que sabiam costurar e em nosso bairro havia lojas de tecidos como as Pernambucanas e a Buri e outras lojas onde podíamos encontrar todos os acessórios para que as cortinas ficassem bem montadas. Com ar aconchegante e pomposo, as janelas do quarto eram cobertas pelas cortinas em "voil" branco fininho e franzido com fartos babados. E para dar ainda mais a este cenário um visual de quarto de princesa, os chinelos brancos e decorados com plumas também brancas ficavam delicadamente sobre o tapete de um dos lados da cama.
Com a aproximação do casamento, os presentes chegavam à Rua Almeida Nogueira, local onde minha irmã iria morar, e eram colocados sobre a cama até atingir o chão e todos os espaços do quarto, de forma que o quarto de princesa aos poucos se transformava em uma linda exposição de utensílios domésticos. Os convidados só traziam os presentes quando o quarto da noiva definitivamente ficava pronto, eles gostavam de vê-lo para comentar depois. Lembro que muitos deles diziam que todos os papéis dos presentes deviam ser colocados embaixo da cama para dar sorte. Na minha infantil inocência eu achava um absurdo tanto papel amassado em um quarto tão lindo de princesa, mas tradição é tradição e sorte todas as noivas na certa queriam ter.
Os convidados eram todos muito bem recebidos na visitação e depois de presentear e apreciar o quarto da noiva iam para a sala fazer um brinde com licor, refrigerante ou um vinho doce, acompanhado de deliciosos biscoitos e salgadinhos. Esta parte era a que mais eu gostava, além de ajudar a servir os convidados eu me fartava nas guloseimas. Depois da lua de mel, os noivos sabiam que a primeira atitude era se encher de muita disposição para organizar todos os presentes ganhados no casamento, deixando o quarto livre para ser usado. Depois de todo este movimento, certamente ele não seria mais um quarto de princesa e sim dos noivos, cujos pais, por terem apenas um filho, resolveram dividir a casa com o novo casal. Muitas vezes pensei: esta maratona devia ser muito cansativa para todos.
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