Esopo foi um fabulista grego, nascido na Trácia (região da Ásia Menor), do século VI antes de Cristo. Um personagem quase mítico, sabe-se que foi um escravo libertado pelo seu último senhor, o filósofo Janto (Xanto).
Considerado o maior representante do estilo literário no gênero das Fábulas, possuía o dom da palavra e a habilidade de contar histórias curtas retratando animais e a natureza e que invariavelmente terminavam com tiradas morais. As suas fábulas inspiraram Jean de La Fontaine e foram objeto de milhares de citações através da história (Heródoto,Aristófanes, Platão, além de diversos filósofos e autores gregos). A Raposa e as Uvas é um exemplo dos mais conhecidos entre as centenas das que produziu. É impressionante como suas milenares fábulas se ajustam perfeitamente às nossas ações e condutas em pleno século XXI, quando atingimos avanços tecnológicos inimagináveis.
Todos estão cientes do mal resolvido problema da dengue, da escassez de água e também do alto custo da energia elétrica – estamos recorrendo às dispendiosas usinas termoelétricas em razão do baixo nível nos reservatórios das usinas hidroelétricas. Bem, a corrupção é endêmica e se questionado, nosso bom Deus diria que vai ter um fim, mas não na sua gestão.
Resido na região da Avenida do Cursino, bairro da Saúde, em seu ponto mais elevado o que me permite visualizar alguns quarteirões. Diversas vezes, avistei caixas de água – de PVC, polietileno e de concreto – destampadas ou parcialmente descobertas. Imóveis com enormes recipientes e tambores acumulando água da chuva. Adicione-se a esta mazela urbana, muitas luminárias públicas permanentemente acesas, talvez devido ao mau funcionamento de um simples relé fotoelétrico.
Pensando globalmente e agindo localmente fico em paz com minha velha consciência. Pela minha janela, consigo localizar as ruas dos tais fatos. Recorrendo ao Google Maps ou ao Guia de Ruas, tenho condições de solicitar aos órgãos competentes, as inerentes soluções em pró da coletividade. Todas as demandas que formalizei foram solucionadas a contento.
Quase todo dia, presencio também moradores "empurrando" com mangueiras de água o lixo em direção ao meio-fio ou lavando seus veículos nas calçadas. Aos conhecidos até tenho a liberdade de dirigir algumas brincadeiras em tom sério. Parafraseando a personagem televisiva, um deles me disse, também brincando: “Tô pagando!” E fica o dito pelo não dito; a vida passa e o sol nascerá.
Ontem, ao aconselhar um "vizinho acumulador" para que realizasse urgentemente uma faxina geral em seu quintal repleto de vasos, latas, pneus e garrafas, escutei a equivocada alegação de que o aedes aegypti não atingirá seus familiares porque "espertamente", irá providenciar telas nas portas e janelas. Segundo o míope pensamento do mesmo, aedes aegypti nos olhos dos outros é refresco! Por isso, tolamente, pensei nesta surrada fábula que cabe como uma luva na presente comédia que poderá se transformar em drama. Hoje bem cedo, enviei-lhe via e-mail este sábio ensinamento de Esopo:
A ratoeira
Um rato, olhando pelo buraco na parede, avista o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali. Ao descobrir que se tratava de uma ratoeira, ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda, advertindo a todos:
– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!
A galinha disse:
– Desculpe-me Sr. rato, eu entendo que isso seja um enorme problema para você; mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato dirigiu-se ao porco e lhe disse:
– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
Respondeu o porco:
– Desculpe-me, mas não há nada que eu possa fazer pelo senhor, a não ser rezar. Fique tranquilo que você será lembrado em minhas preces.
O rato então dirigiu-se à vaca que disse:
– O que, Sr. rato? Uma ratoeira? Por acaso corro perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa, cabisbaixo e abatido; pronto para enfrentar a ratoeira do fazendeiro.
Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira desarmando. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia sido pego. No escuro ela não viu que se tratava da cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher…
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela retornou com febre alta. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença continuava, os amigos e vizinhos foram visitá-la. Para alimentá-los o fazendeiro matou o porco. Mas a mulher não melhorou e acabou morrendo. Muita gente compareceu ao funeral e o fazendeiro então, sacrificou a vaca para alimentar aquele povo todo.
Na próxima vez que ouvirmos dizer que estamos diante de um problema e acreditarmos que o risco não nos diz respeito, lembremo-nos que quando há uma ratoeira na casa, toda a fazenda corre perigo. Ou seja: "o problema de um pode ser o problema de todos".