O portão era logo ali

Sampa, 8 de dezembro de 1962. Um sábado. Naquele dia o "Grupo Escolar Senador Adolfo Gordo", que se situava (ou se situa?) na mesma rua da famosa "Indústria de Roupas Regência" no bairro do Caxingui, iria fazer a entrega aos formandos do curso primário, que compreendia o primeiro ao quarto ano. O primário, para os mais jovens saberem, correspondia ao que é hoje a primeira à quarta série do ensino fundamental. Após o primário, o aluno tinha que cursar o ginásio, que hoje corresponde da quinta à nona série. Depois, vinha ou o científico, ou o colegial ou segundo grau, que hoje se equivale ao ensino médio.

Mas, voltando aos 8 de dezembro, eu era um dos formandos e, ao lado dos meus pais, recebi o tal diploma. Assim como recebeu o seu, uma japonesinha de nome Yoshiko Terezaki, que não era da minha classe, e nem amizade com ela eu tinha. Tudo parecia transcorrer normalmente, eu e meus pais retornamos para casa e fomos dormir. Dia seguinte (09/12), pela manhã, meus pais pedem que eu vá à padaria perto de minha casa para comprar não sei o que…

Quando lá cheguei, avistei na esquina da rua de cima (Rua Nova Paulicéia) uma imensa e inexplicável multidão, e perguntei a alguém o porquê daquela multidão àquela hora, quando fui informado de que houve um homicídio ali na esquina da Rua Nova Paulicéia com a Avenida Professor Francisco Morato, no bairro do Caxingui. Corri imediatamente para minha casa e contei o ocorrido aos meus pais. A repercussão do crime foi imensa, para fora do Brasil. Naquela época não se falava em mídia. O homicídio da japonesinha Yoshiko Terezaki ocorrido na noite de 8 de dezembro de 1962, no Caxingui, ganhou repercussão mundial. Foi considerado pela imprensa o crime do "monstro do Caxingui". Durante muitos anos a polícia investigou, porém, infelizmente, infrutiferamente, eis que os assassinos não foram identificados.

Muitos anos se passaram e, já quando eu era crescido, ouvi dizer que um dos assassinos, no interior de um bar, bêbado, abriu o bico e entregou tudo para a polícia e, finalmente, os demais assassinos foram identificados e presos. Tratavam-se de elementos conhecidos no bairro, porém, de péssimas reputações lá pelo início da década de 60. Não sei informar quais foram as sentenças dos mesmos. Impossível eu não lembrar-me de tudo isto nos outros 8 de dezembro que vivi, pois algo tão “dantesco” fica na memória. Penso que o justo merecimento dos assassinos não é recebido aqui em vida, pois o próprio ser humano não tem grandeza para entender a gravidade e magnitude do mal que um ser humano pode fazer a outro quando ele assassina alguém. Aí, a nossa esperança de que estas criaturas terão o justo merecimento depositamos nas mãos de Deus, e Deus é Deus e ponto final.

Em tempo: ironicamente, 8 de dezembro é o Dia da Justiça.

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