Uma vez ouvi algo incomum de um estrangeiro que visitava São Paulo pela terceira ou quarta vez. Disse ele que conhecera antes o Rio de Janeiro e Curitiba, que são lugares lindos, encantadores, mas que havia alguma coisa diferente em São Paulo que o tinha atraído. Ele teve a rara percepção de notar que na maioria das vezes, a beleza de São Paulo está escondida. São Paulo é cheia de pequenas portas que atravessam corredores que levam a lugares incríveis. Fachadas de prédios nos mais diversos estilos arquitetônicos que se envergonham por trás de esquizofrênicos letreiros luminosos. Parques e pequenas porções de mata intacta em lugares improváveis.<br><br>Apesar destas características e muitas mais, de metrópole afogada na correria e no caos, cada bairro acaba ganhando sua identidade, tornando-se um pequeno recôndito que ainda guarda histórias pitorescas e situações inusitadas, típicas de pequenas cidades.<br><br>Naquele domingo acordei às oito da manhã com a campainha de casa tocando frenética e insistentemente. Pensei quem poderia ser àquela hora. Que coisa mais desagradável. Oito horas da manhã, e o sujeito não desistia de tocar. Já estava amaldiçoando uma possível testemunha de Jeová ou algum outro tipo de religioso com vocação beneficente. Tentei o velho truque do travesseiro cobrindo a cabeça, mas não funcionava. Eu já havia sido acordado. Levantei-me, cabelo em pé, e me considerando um injustiçado por ter sido subtraído do meu sono sagrado num domingo, olhei pelo postigo da porta da frente. Uma Kombi do tipo picape parada em frente à minha casa com dois sujeitos do lado de fora. Olhei com atenção, e certo receio. Pareciam dois personagens saídos de histórias do Jeca Tatu. Chapéu de palha, blusa xadrez e a inconfundível marca registrada do capiau genuíno: calçavam borzeguim.<br><br>- Bom dia sinhôôrrr – disse um deles com aquele erre arrastado dos cafundós de Piracicaba e o bom humor inabalável do caipira.<br>- Bom dia – respondi – Pois não?<br>- Então, senhor, nóis conhecia o antigo dono da casa que o senhor mora.<br>- Sei.<br>- A casa do senhor não é assim e assim?<br>- É, e daí?<br>Entre uma mordida e outra num galho de mato ele falou:<br>- O senhor não tem um pé de louro lá no fundo do seu quintal?<br>- Tenho – respondi ainda desconfiado.<br>- Então, senhorr, nóis vinha todo ano podá o pé de louro. Já faz uns três ano que nóis num vem. Deve tá precisando de uma poda, tá não?<br><br>Não sabia muito bem o que fazer naquela hora. Minha desconfiança começou a migrar para o lado da simpatia incauta. E a verdade é que o pé de louro já estava precisando de uma poda. Minha mulher dormia, e meu cachorro me olhava com a mesma incredulidade que eu encarava aquela situação. Resolvi arriscar:<br><br>- E quanto o senhor vai me cobrar pra podar o pé de louro?<br>- Cobrar??? – me pergunta o matuto surpreso – Nós é que vamo pagá o senhor pelo tanto de fardo que nóis tirá do seu pé. Sua árvore deve dá hoje uns dois fardos.<br><br>Aquilo não fazia o menor sentido… Um sujeito que você nunca viu, toca a sua campainha às oito da manhã de um domingo querendo pagar pra podar um pé de louro que está escondido no fundo da sua casa.<br><br>- E quanto você vai me pagar?<br>- Me deixa ver com o irmão – um olha pro outro que faz um gesto de jogo de truco – Trinta real tá bão?<br><br>Sem pestanejar aceitei. Na mesma hora em que dei a positiva, uma série de movimentos coordenados arrancaram de dentro daquela Kombi alguns instrumentos de poda, escada, fardos de pano e um cantil. Os dois se dirigiram rapidamente para o fundo da casa, onde se encontra o pé de louro.<br><br>- Esse pé do senhorrr deve ter uns sessenta ano.<br><br>O outro já subindo na árvore com a mesma destreza dos moleques ladrões de goiabas do interior, sacou de uma pequena foice e um mini-serrote e começou a jogar pra baixo, galhos e mais galhos recobertos de folhas. O outro, no chão, num sincronismo que evidenciava aquela prática há muito tempo, ia desfolhando cada galho com a mão calejada e grossa, e colocando as folhas mais largas dentro de um dos fardos. Os galhos iam sendo jogados para um lado e as folhas menores pra outro fardo.<br><br>- Nóis conhece quase todas casa onde tem pé de louro aqui na sua cidade – me conta o matusquela – Só aqui no seu bairro tem cinco.<br><br>- E o que você faz com tudo isso? <br>- Depois nóis separa em maço de cem folha e vende no Ceasa – prosseguiu – Outro dia nóis tirou vinte e sete fardo de louro de um pé numa casa ali perto do Butantã. Aquela árvore lá deve ter chegado com os portugueses… Hahaha.<br><br>Riram os dois, e acabei por rir junto.<br><br>Terminaram o serviço, e com a simplicidade interiorana, sentaram-se debaixo do pé de louro – agora careca – tomaram goles revigorantes da água do seu cantil e acenderam um cigarro de palha. Num gesto puro e natural, me ofereceram um palheiro. Dei um trago, por cortesia, ao que tive a sensação de que meu pulmão iria colapsar. Novamente, riram os dois. E ri eu. Pegaram suas coisas com a mesma sincronia, jogaram os dois fardos na caçamba da Kombi e me acenaram:<br><br>- Até logo senhorrr ! Ano que vem nóis vorrrta! Fica com Deus!<br><br>Meu domingo, e uma parte dos meus valores, se transformaram naquela hora e meia em que os dois irmãos podavam o pé de louro da minha casa. Entendi um pouco mais o que significa morar numa metrópole, quando dizem que em São Paulo você tem tudo vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.<br><br>E-mail: [email protected]