O Pascualino da Padaria Napolitana

Todos os domingos, há um ano atrás, tinha o hábito de ir até a feira confinada na Mooca, na Rua dos Trilhos, adquirir alguns antepastos para acompanhar o macarrão de domingo. Azeitona preta com orégano e alho, queijo Pecorino (queijo de leite de ovelha, massa dura, curado e picante) e os dois tradicionais gomos de morcilla.

Na barraca de laticínios quem me atendia era uma moça, neta de napolitanos, não sabia nada de antiguidades, mas falava o idioma moquense cantado, e ouvia-me com atenção: – Ô seu Rube, u sinhô tem cada história einh… Perguntou-me sobre o pão, de cortar no braço, que trazia embaixo do braço. Dissertei sobre o pão italiano e os costumes antigos de cortá-lo segurando embaixo do braço. Em seguida veio da memória, a Padaria Napolitana, da Rua Visconde de Parnaíba, e seu proprietário, o Pascualino.

Uma senhora, mais velha que eu, ouvindo a conversa, falou: – Ah, eu lembro, o Pascualino era muito bom, o marido de Dona Antonieta.

Apanhei meus pacotes e retornei para casa refletindo as coisas do passado. A família do seu Pascualino foi a primeira a enricar. Construíram o prédio do lado da padaria antiga, no térreo instalaram um moderno forno à lenha. Recordei os fardos de lenha junto à porta da padaria. Compraram o prédio antigo da sacaria, em frente, para servir de alojamento aos padeiros vindos do interior. Construíram o armazém na Rua Visconde, quase em frente à Rua Mendes Sá, onde morou Nardo, campeão pelo Corinthians e Palmeiras.

Tudo a custa de muito trabalho e sacrifício, Pascualino levantava 4h00 da manhã para acompanhar o acender do forno.

Foram os primeiros a adquirir televisor, e sem qualquer parcimônia deixava todos os moleques da rua assistir à TV, aos domingos: Ginkana Kibon, Circo do Arrelia e o jogo de futebol, narrado pelo Raul Tabajara, na Record, Canal 7, à época propriedade do Paulo Machado de Carvalho.

Sem dúvida era muito bom o Senhor Pascualino.

Chego em casa, sento no meu sofá preferido, antes preparo meu drink Americano (bitter, vermute, gelo, azeitona verde e limão pra decorar), auxiliava a recordar, dominar a emoção da saudade, e aguardar a "richitelli alla reggiana", preparada com muito esmero pela esposa.

Liguei à prima Manuela. Narrei o ocorrido.

A prima em seguida comenta: – Pó, Rubinho (continuo Rubinho, mesmo com 6.3), você não lembra? A esposa dele, a Dona Antonieta, convidava as mulheres mais aflitas no dia a dia para orar, rezar, e clamar as ladainhas a San Gennaro. Após a reza era servida uma mesa farta com pães doces, broas, sonhos, tudo regado a café com leite.

Observo de imediato, Dona Antonieta e Pascualino era um casal muito generoso. Com a voz embargada minha prima responde: – Pó! Se eram bons. Lembro como se fosse hoje. A mãe (tia Carmem) estava afastada do Tecidos Labor, doente, e o pai (tio Eugênio) foi solicitar mais prazo para pagar a dívida e informar o ocorrido, por isso havia deixado de ir comprar o pão e o leite diariamente… O Sr. Pascualino vai até a gaveta, pega a caderneta, a caneta pendurada na orelha, rabisca toda a conta e diz: – O senhor não me deve nada, e a partir de amanhã pode retornar a comprar aqui na padaria. E pague quando puder…

Era muito bom o Senhor Pascualino. Hoje certamente descansa no céu, em paz, no colo de San Gennaro… Aqui na Terra procuro, e não encontro, mais Pascualinos…

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