O Palácio das Indústrias

Todos que tiveram a felicidade de viver sua infância no bairro do Braz, nas décadas de 30 e 40, com certeza têm na memória momentos felizes de brincadeiras no Parque D.Pedro II, tendo como pano de fundo o Palácio das Indústrias.

Neste aspecto, eu me considero um privilegiado, pois pude brincar nas dependências internas do Palácio, principalmente no seu lindo jardim que não pode ser avistado pelo lado de fora, somente por vista aérea. O jardim referido possui cinco chafarizes com os tradicionais leões, sendo um central e os outros localizados um em cada canto do jardim. Em dias de muito calor brincávamos dentro dessas fontes. O segredo de tudo isso é que eu era amiguinho do menino Orlando, filho do zelador do Palácio.

Ainda hoje, quem olha o Palácio de frente, vê, à direita, uma enorme janela (era ali que morava a família do Orlando). Nessa época, início dos anos 30, no Palácio, funcionava o Departamento do Trabalho e nos domingos e feriados, como não havia expediente, aproveitávamos para brincar. Não havia segurança nenhuma e o zelador era responsável por tudo.

Morava eu no início da Rua do Gasômetro, bem perto do Parque D.Pedro, o que facilitava minhas idas e vindas até o Palácio das Indústrias. Meu pai, como bom espanhol, era sempre contra o governo e dizia que aquele departamento era apenas fachada para emprego a alguns apaziguados do Getúlio. Ele era radical, mas no fundo, tinha suas razões, pois, os comentários eram que naquele departamento ninguém fazia nada.

Um dia, o pai do Orlando pediu para que eu fosse mais cedo para brincar com este e, como era um dia útil, minha irmã estranhou o fato e foi me levar pessoalmente. Ficamos brincando dentro da sala e nos foi recomendado para não sairmos.

Depois de certo tempo, ouvimos uma banda tocar, abrimos o vão da janela e vimos soldados e escolares cantando. Um homem baixinho e sorridente abraçava um homem alto e forte. Quando vimos um caminhão distribuindo doces e refrigerantes saímos correndo, todos riram menos o zelador que nos levou de volta para a casa.

Com o decorrer dos anos entendi que o homem baixo e sorridente era Getúlio Vargas, nomeando Ademar de Barros interventor em São Paulo. Os acontecimentos ocorreram por volta do ano de 1935.

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