Tento imaginar o tamanho das asas da minha mãe para abrigar todos os filhos e ainda esticá-las a quem precisasse. Lembro-me quando éramos crianças, na Vila Nivi, da ajuda do Sr. Domingos, da quitanda, na esquina da Rua Baltazar de Morais, nos dando frutas; da D. Tite, madrinha da minha irmã, que nos dava roupas e brinquedos dos seus filhos e nos deixava assistir TV aos domingos; da Dona Madalena, que sempre nos ajudava; do Sr.Waldomiro, farmacêutico, este sim eu odiava… Mas, hoje, eu o agradeço e muito! Era ele quem nos socorria nas doenças.
Lembro do meu irmão enrolado em um lençol igual a um charuto, sem movimento nenhum e ele dando pontos em seu pé cortado. Aquele dia, corri dois quarteirões para não escutar seus gritos, mas não adiantou nada. Não existia anestesia e era assim que se fazia. Ele segurava minha irmã caçula entre as pernas imensas e lhe dava injeção, ela estava com pneumonia e foi muito grave. Eu chorava muito ao ver as atitudes dele.
Tinha uma irmã que desmaiava sempre, nunca foi descoberta a causa. Era o Sr. Waldomiro que a socorria e deixava remédios de amostra grátis para todos da família. Mas, a grande ajuda foi da minha tia Idalina, irmã da minha mãe. Ela nos salvava sempre. Todo ano ela vinha nos trazer muitas coisas e me levava para passar as férias na sua casa, em Santos.
Aí sim eu virava princesa; fazíamos compras na SEARS, e ela comprava roupas iguais para mim e para minha prima Maria Lúcia. A noite, íamos ao culto evangélico e eu ia lá na frente ler trechos da Bíblia, lia bem alto como se declamasse uma poesia. Ela tinha muito orgulho de mim e eu me sentia muito importante!
Foi lá que tive o primeiro sentimento de amor, meu coração palpitava ao vê-lo, devia ter uns treze anos e nada podia ser revelado. Nossos olhares se cruzavam e eu queria ficar na porta da rua o tempo todo com a esperança de que ele passasse por ali.
Foram 20 dias de plena felicidade, mas as férias acabaram e tive que voltar. Lembro de ter me despedido dizendo que voltaria no ano seguinte e ele ter apertado minhas mãos e ter me dado um selinho tão rápido que até me assustou. Para completar, ele me deu um LP do Roberto Carlos com a música “Escreva uma carta meu amor”, grifada em vermelho.
Mas, eu nunca voltei! Minha tia Idalina faleceu, meus primos ficaram uma temporada conosco e depois foram morar com o pai. Nunca esqueci minha tia, nossos passeios na praia o prazer de comer lanches, milho verde e tomar picolés.
O companheiro dela (pai dos meus primos) tinha um restaurante a beira-mar e nos mandava pratos deliciosos com frutos do mar e sobremesas. Parecia um sonho. Minha tia sempre penhorava suas joias e dava todo o dinheiro a minha mãe quando ela ia nos buscar, dizendo: “Não se preocupe mana, quando eu puder tiro aos poucos da penhora!”.
Lembro dela deitada no sofá de entrada, assistindo eu e minha prima cantar músicas que até hoje eu me pego cantando nas horas de solidão. Não tenho nenhuma foto, mas guardo nitidamente as lembranças dela sorrindo, com seu batom vermelho e cabelos escuros. Já se passaram mais de 45 anos de sua morte e eu nunca a esqueci. Sua passagem pela minha infância foi tão marcante que muitas vezes me pego triste ao lembrar-me dela e de tudo o que ela fez pela minha mãe. Eu a admirava muito! Talvez, por isso, me olho no espelho e penso: “Nossa como me pareço com ela…”.
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