O ônibus nosso do dia a dia

Já na metade dos anos 1950, eu sabia da dureza de ter que pegar duas conduções para ir à escola. Às cinco e meia da manhã saia de casa, na Vila Olímpia, e andava um quilômetro para pegar um ônibus na Avenida Santo Amaro; era o 79, que vinha de Santo Amaro, ou então o 81 Brooklin, ambos com destino ao Anhangabaú. O ônibus naquele tempo não tinha catraca e o cobrador percorria o veículo de ponta a ponta indo e voltando, com bloco de bilhetes na mão, entregando às pessoas que pagavam a passagem, e tinham o comprovante para não pagar duas vezes.

Na saída do ônibus, próximo ao motorista, tinha uma urna para o passageiro colocar o bilhete que lhe era fornecido. Muita gente não tinha paciência de colocar o papelzinho na fenda da urna e deixava caído no chão, perto dos degraus da porta da frente. Naquele tempo a gente entrava pela porta de trás e descia pela frente. Sempre tinha uma pessoa que antes de descer pegava as papeletas e colocava na urna. Geralmente pessoas de idade. Às vezes tinha alguém que ficava nos degraus da porta de trás e descia por ela quando a porta era aberta para alguém subir no ônibus, só para não pagar a passagem.

Na Avenida Nove de Julho, faltando três pontos para chegar ao Anhangabaú, o motorista não mais abria a porta de trás, mesmo que alguém fizesse sinal. Isso para não ter uma debandada de "espertos". E por falar em dar o sinal, uma vez um passageiro, num ponto da Avenida Nove de Julho, em vez de fazer sinal com a mão, o fez com o pé. Depois que ele subiu o motorista parou o ônibus e foi até ele, para perguntar:
– “Oh Cara, você é gente ou cavalo?”
O passageiro, sem graça, respondeu:
– “Sou um ser humano, por quê?”
– “Porque gente não dá sinal para parar um ônibus usando o pé!”

Foi dada uma salva de palmas para o motorista. Naqueles anos da minha infância os itinerários não eram muito longos. Quem vinha de Santo Amaro achava longe até o Anhangabaú, como quem vinha de São Miguel para o parque Dom Pedro. Os ônibus que vinham da Zona Sul paravam no Vale do Anhangabaú. Já os que vinham da Zona Leste, tinham o ponto final no parque Dom Pedro ou Praça da Sé. Os da Zona Norte no largo do Paissandu e baixos do viaduto Santa Ifigênia. Os da Zona Oeste ao lado do Teatro Municipal.

A primeira linha de ônibus que ultrapassou o limite do centro da cidade de São Paulo foi a Penha-Lapa. Era a linha mais longa do transporte coletivo de nossa cidade. Virou sinônimo de “coisa grande”. O Chope, por exemplo, tinha o copo pequeno, o médio e o grande. Depois veio um maior ainda, o copo duas vezes maior que o copo grande, apelidado de Penha-Lapa. Mania de grandeza que foi ultrapassada pela cidade de Itu. Mais tarde soube-se que tinha também uma linha que circulava pela estrada de Sapopemba, de alguns quilômetros a mais. Hoje em dia sabe-se que a linha de maior extensão é a que vai para a cidade Tiradentes, passando pelo elevado, que já foi chamado fura-fila. São 50 quilômetros, que dobra entre ida e volta.

As pessoas que vão trabalhar no centro ou adjacências saem de casa às três horas da madrugada a caminho do centro da cidade, dão mais uma dormida no veículo para completar o sono, já que demora 50 minutos devido ao pouco trânsito, mas que nas horas de pico demora muito mais. Normalmente as pessoas que entram no veículo naquele horário são sempre os mesmos desse horário, e daí nasce uma grande amizade; vão conversando e a segunda-feira é o dia de um papo mais apurado por causa dos resultados do futebol do dia anterior. Mas isso é um pouco mais tarde, porque no veiculo madrugador não se ouve um pio. Todos estão dormindo ou cochilando.

É a luta diária pelo pão. A maioria são obreiros que vão da Zona Leste para ajudar o crescimento da nossa cidade. Os irmãos nordestinhos, responsáveis pela construção dos espigões da cidade. Sem eles, não sei, talvez não existissem tantos. Motoristas das linhas mais longas da cidade são homens experientes no volante, normalmente de meia idade, que pelo fato de ter que prestar atenção à frente, pouco conversava com os passageiros, a não ser quando alguém pedia antecipadamente que queria descer em tal ponto e ele, muito solícito, no momento exato "grita" para o passageiro, já na porta de trás: é agora!

Já os cobradores são mais conversadores. Numa reportagem de um programa jornalístico da TV, um deles disse que começou a namorar uma moça que pegava seu ônibus todo dia no mesmo horário das cinco da manhã. Conversa vai, conversa vem, e pronto, quando perceberam estavam no altar ouvindo o padre dizer:
– “Vocês juram estar um ao lado do outro na alegria e na tristeza?”
Com um jeito meio tímido, ele disse que estava já havia quinze anos casado com ela. Sabe-se que de cada dez cobradores, oito se casam com passageiras.

No meu tempo de usuário, havia muita encrenca dentro do ônibus. Era sempre homem abusando de mulher, dando encochadas na maior sem-vergonhice quando o veículo estava lotado. A maioria das mulheres fazia cara feia e saía fora. Mas algumas barraqueiras faziam um tremendo sururu, que o cara apanhava de quem estava perto. Tinha também mulher que, por motivo fútil, promovia barraco dizendo que um homem estava com má intenção, mas se via no rosto dele que não tinha esse perfil; então era ela chamada de vagabunda.

Nesse mister de se aproveitar dessas ocasiões para abusar das mulheres, tinha sempre um bastante ousado que tirava o pênis para fora da calça, quando o veículo estava lotado. Num veiculo que ia para o Brás uma mulher estava sendo ultrajada com esse tipo de coisa. Ela aguentou como pôde até ver que o veículo daria uma esvaziada. Aí ela deu dois passos à frente e ele ficou exposto. Levou uma surra. Sua sorte foi que tinha um guarda civil que evitou um linchamento maior.

Hoje em dia estamos em outro patamar. Quando não são os arrastões, é um ou dois sujeitos armados levando tudo o que puder dos passageiros. Isso quando não tem um policial à paisana que pega sua arma e dispara, nem sempre no ladrão. Uma bala desavisada acerta um inocente. Evoluímos?

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