Depois de uma noite de aulas no Colégio Estadual Melvin Jones, no Socorro, em Santo Amaro, nos dirigíamos ao "negreiro", último ônibus que saia da Represa de Guarapiranga, bem em frente ao Cassino Vila Sofia, que, aliás, fechou suas portas neste final de ano na Avenida de Pinedo, onde estava também o Monumento aos Aviadores da Travessia do Atlântico. O ônibus contornava o quarteirão e fazia o balão para sua última viagem daquele dia.
Nós parecíamos enfermeiros vestidos com avental branco, saíamos correndo em direção ao ponto. Éramos um "bando de pardais" assoviando e apostando corrida, em uma zombaria sadia. Tudo concorria para a alegria daqueles estudantes do Melvin. Meu amigo Julhinho já manobrava a perua escolar da família e fez-se amigo do motorista, que não era de muita conversa, mas era "boa praça" e "supervisionava" meu amigo curioso em perguntas constantes sobre coisas do coletivo.
A maioria trabalhava durante o dia e vinha em uma sonolência, meio dormindo, meio acordado, mas o zum-zum não parava de jeito nenhum. Certo dia quase fomos "enquadrados" em nome da "segurança nacional" por dois carrancudos "vestidos à paisana", pois estávamos criticando o Golpe de 64, coisa ensinada por algum professor "reacionário"(como diziam os adeptos ao regime de todos professores da época) de organização social e política que nos havia "transmitido conhecimento"; nem sei como os "dito cujos" apareceram naquele ônibus, foi o dia do "silêncio" e até quem dormia estranhou a monotonia!
Mas era difícil parar com a alegria de uma garotada que estava descobrindo o mundo, mesmo que quem mandasse fosse a voz do quartel. Um belo dia o ônibus "negreiro" não apareceu, ordens expressas de algum coturno em marcha e de plantão, típico dos de exceção. Desconsolados começamos a caminhar, uns debandaram para um lado, outros tomaram o rumo do Largo 13 de Maio, e nós saímos pela Guarapiranga a fora, rumo ao Jardim São Luiz, onde era o ponto final do Represinha, como nós chamávamos a linha do "negreiro".
Nunca soubemos o que aconteceu, e o Melvin Jones, nome do colégio noturno do oficial do Dom Duarte Leopoldo e Silva (era comum usar o mesmo colégio com dois nomes) também sumiu em 1975, última turma a ostentar seu nome, não sei o porquê, nem nunca saberemos se o Melvin também foi intimado pelo quartel vigilante de uma re-evolução que nunca aconteceu!
E-mail: [email protected]