Éramos ainda crianças, dez ou doze anos quando nos conhecemos. Ele já morava lá, na eterna Rua Gaspar Soares, Jardim São Paulo.
Fui morar ali, no predinho número 354 bem em frente a sua casa, onde pela primeira vez o vi, brincando com outras crianças de escorregar no cimentado de sua garagem que seu pai molhava com uma mangueira, naquele dia de sol.
De tanta vontade desci e fiquei timidamente olhando e com vontade de também brincar com eles.
Assim foi que nos conhecemos, não lembro bem como foi que começamos a nos falar mas sei que no foi no ano de 1963, ou seja, 48 anos já passados.
Um dia, ele começa a mostrar seus desenhos. De aviões da segunda guerra.
Desenhos perfeitos onde cada detalhe revelava uma capacidade de observação rara, pois reproduzia coisas que só uma foto era capaz de mostrar.
Seus desenhos dos Stukas, Camel, Nieuport, Focker Triplano de Von Richtoffen, o famoso "Red Baron", modelos também da primeira guerra, eram maravilhas.
Isso numa época sem acesso a informações como hoje, ele obtinha seus modelos dos kits de plástico da Revell, uma verdadeira febre em nossa infância e que ele montava e pintava com maestria.
Fazia também desenhos, como uma vez o de um rato, meio caricatural, que parecia vivo no papel, parecendo querer sair correndo, e feito apenas com lápis.
Passou depois à sua grande paixão: automobilismo, e as "obras-primas" se multiplicaram em Lotus, Ferraris, BRM's, Matras, Lolas além do mítico Ford GT 40.
Éramos então fanáticos por Fórmula 1 a ponto de cada um de nós possuirmos uma miniatura desses carrinhos da Matchbox. Riscávamos à giz no chão da garagem um circuito de corridas, marcados como esses jogos de tabuleiros, e íamos "correndo”, avançando cada marcação numerada à medida que os dados que jogávamos iam apontando.
Formávamos equipes e, sorte minha, eu fazia dupla com ele na Equipe Lotus, ainda com os carrinhos ostentando a lendária cor "British Racing Green"; ele era Jim Clark e eu seu companheiro de equipe Chris Amon, e assim nos divertíamos.
Nós, seus amigos, desejávamos ter um de seus desenhos, mesmos aqueles que ele considerava apenas rascunhos, mas que eram verdadeiras perfeições.
Possui também extraordinária habilidade manual, pois construía maquetes, modelos de aviões e carros de corrida em madeira de balsa.
Lembro uma vez que fui com ele desde o nosso Jardim São Paulo até a Rua Major Sertório, na velha Casa Aerobrás, onde ele ia comprar madeira de balsa para seus modelos e esculturas e os modelos ali expostos naquelas vitrines me pareceram canhestros perto dos que ele fazia.
Nosso amigo além de grande artista revelava qualidades de caráter muito raras já naquela época: bom senso, capacidade de amizade, ideias próprias, liderança e retidão em suas atitudes, qualidades que revela até hoje.
Hoje, artista consagrado nos meios automobilísticos, autor de vários quadros a óleo sobre a carreira de Ayrton Senna e outras lendas, autor do maravilhoso Troféu do Grande Prêmio de Fórmula Indy de São Paulo, segue seu destino de escultor, ilustrador, pintor.
Seus quadros e esculturas estão nas coleções particulares dos grandes da Fórmula 1 e já são conhecidos nos Estados Unidos e na Europa.
Paulo Solaris, esse seu nome de artista, encanta a todos com sua arte maravilhosa, nascida lá em nossa pequena rua em meio aos nossos sonhos de adolescente.
Uma vez quando de sua visita em minha casa, me presenteou com um seu quadro, que representa Ayrton Senna, numa curva de Mônaco, entrando no limite, como era de seu estilo. Esse quadro, feito a lápis, mostra o talento avassalador que possui, quadro que faz parte de seu livro Arte para Senna e hoje na parede de minha sala revela nossa grande amizade.
Quem conhecer sua obra, "conhecerá a felicidade e o assombro"!
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