Sou imensamente grata ao meu grande professor de Português do antigo curso ginasial. Eu nunca o vi de mau humor, com cara de poucos amigos ou insatisfeito com a vida, mas sempre pronto para viver. Chegava pela manhã, invariavelmente de terno e gravata, e nos cumprimentava com um suave "bons dias", pegava o espanador que ficava num pequeno armário atrás da mesa, rapidamente tirava o pó e começava a sua aula.
Mas ele era de uma habilidade rara. Não se esfolava de trabalhar, nada de neurose acadêmica, mas era um excelente professor, daqueles que ensinava a sua gramática com perfeição e, vez ou outra, nos falava de coisas que precisaríamos ter durante toda a nossa vida – como a prudência, o respeito e a dignidade. Aliás, ele não abordava diretamente nenhum desses temas, mas a aula era dada na sutileza e conseguíamos compreender o que ele falava. Sem marcar data, sem nenhum aviso, ele chamava um ou outro e dizia: "venha cá, cidadão, e fale durante 5 minutos". Estávamos na 6ª série e tínhamos que ter coerência na falação, não podíamos parar para pensar e nem divagar. Gaguejar nem pensar! Era necessário que o pensamento fosse fluido, sem interrupção… e dávamos conta do recado.
Como deveres de casa, muitos exercícios de análise sintática e a correção era feita invariavelmente no dia seguinte. Muitas vezes, pedia que pegássemos uma página qualquer de um romance qualquer e procurássemos dez figuras de linguagem. Ele se divertia muito quando alguém dizia que não havia encontrado as metonímias, as catacreses, os anacolutos. E tínhamos que fazer poesias, apresentações em grêmios… e ninguém reclamava, ninguém chamava a mãe dizendo que era tarefa demais.
Durante a tarde o mesmo prestava serviços de advocacia na Prefeitura e, assim, andava de carro pelo nosso Cambuci. Algumas vezes nos via na rua e, no dia seguinte, perguntava onde estávamos indo. Numa das tardes eu estava voltando de uma loja de doces na Lins de Vasconcelos, a loja do Shiguero – hoje chamada Doces Japa. Eu voltava para casa na rua Albuquerque Maranhão com um pacote com grandes pedaços de Maria-mole e doce de batata roxa. No dia seguinte, ele me perguntou: "onde a senhora foi ontem?" Para exibir um Português correto, apenas respondi: "eu fui às compras". Ele meneou a cabeça e disse: "ah! A senhora foi às compras…" Naquele dia eu me achei o máximo… Ele gostava de saber dos nossos irmãos, perguntava mesmo e quando alguém dava alguma manifestação de ignorância ele ria com um "ré ré" muito simpático e ficava de careca vermelha.
Se não fosse o meu professor Antônio Pitorri eu jamais conseguiria falar em público. Ele nos transmitiu confiança, interesse pela leitura, nunca nos deu espaço para a preguiça ou para alguma malandragem. Sem nenhum sermão ele debochava dos malandros de uma forma impecável. Um exemplo: quando algum aluno reprovava, ele começava o ano dando as boas vindas a todos e dizia: "existem alunos que querem ter uma boa base e assim fazem o mesmo ano duas vezes, não é, senhor Cotrim?" E todos riam sem maldade. Hoje uma brincadeira dessas daria processo, haveria papai e mamãe com o Estatuto da Criança e do Adolescente na mão dizendo-se indignado, ofendido, que o filho adolescente iria levar essa marca para a vida inteira… um trauma e a psicóloga seria imediatamente procurada para aliviar esse mal… meu Deus! Como a hipocrisia, a insanidade, a falta de parâmetros passaram a fazer parte da vida dessa juventude!
Mas com o meu professor Pitorri a vida era mais real e ele nos preparava para viver num mundo de verdade, sem subterfúgios, com dignidade, competência, trabalho, criatividade, limites, respeito e longe da preguiça.
Muitíssimo obrigada, professor. Graças ao senhor criei coragem para enfrentar o magistério e sempre falo do senhor quando algum colega comenta a respeito da minha fluência no falar e mesmo no redigir algum texto que deve ser apresentado no final de alguma reunião. Eu digo: "é que eu tive um professor de Português…." e digo o como ele nos tratava e sobre os exercícios que ele nos dava… e estufo o peito para falar do meu professor Antônio Pitorri.
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