O menino que sabia andar na cidade

No triênio entre 1963 e 1965 aprendi a percorrer os caminhos da cidade (centro de São Paulo) sempre acompanhava os parentes e conhecidos dos meus pais, seja para: consultas, compras, encontrar outros parentes, buscar documentos, enfim seja qual fosse a missão… Lá estava eu de prontidão.<br><br>Não havia Guia de Ruas… Mas "quem tem boca, vai a Roma" e perguntar não ofende e nem machuca ninguém. Desta forma a partir da Praça da República, em minha mente, se desenhava todas as saídas para qualquer ponto. Praça da Sé, Arouche, Paissandu, Pateo do Colégio, Largo São Bento e São Francisco, Ladeira da Memória, Avenida São João em toda sua extensão… Libero Badaró…Praça João Mendes e logo abaixo desta, as duas… Sé e antiga Clovis Bevilaqua.<br><br>Em cada pedaço de Avenida, Rua ou Praça deliciava-me com os monumentos, edifícios, casas, revestimentos das calçadas, a expressão na face das estatuas e destas uma que fica logo no inicio da escadaria, cujo dedo indicador ficava voltado para a escadaria… Era quase impossível passar por ali, sem segurar um pouco naquele dedo…já liso e mostrando a cor do metal. Mesmo que houvesse pressa, nada me impedia de descobrir a cada dia algo novo na minha querida São Paulo.<br><br>Em uma certa vez, cheguei muito cedo na Praça da Sé, dia amanhecendo ainda,fui surpreendido pela passarada. Parecia uma festa, estavam voando e revoando de um lado para outro e junto a esse baile aéreo e sonoro o repique dos sinos da Catedral e, prestando bem atenção, percebia-se também os sinos do Mosteiro de São Bento. Naquele instante mágico, para mim, me senti gente grande, pois minha cidade era grande e eu sabia andar nela.<br><br>Ao longo das minhas andanças, havia "bons dias", "boas tardes"…seguidos de sorrisos largos ou discretos. Ir para cidade era como que libertar minha alma. Tinha vida nova ao entrar na cidade.<br><br>Na Praça da Sé conheci um engraxate "seu Severino" que durante nossa conversa descobriu que eu ainda não havia comido nada. Prontamente tomou de sua modesta refeição e dividiu-a ao meio e, juntos, nos fartamos, além de saborear a suculenta mexerica.<br><br>Hoje…não vivo mais em São Paulo, mas sempre que posso, em meio a um feriado prolongado, volto… E fico a andar por todos os lados como no passado.<br><br>Quando todos fogem dela, como que fugindo de um inferno, venho e a encontro ainda mais bela, tranquila…desfruto de seus parques, rua, avenidas e praças, curtindo cada detalhe… E se encontro alguém que afirma…"São Paulo não tem calor humano" discordo prontamente e mostro por experiência própria que todo humano têm nela braços abertos, calor e amor, bastar estar pronto para dar e receber.<br><br><br>E-mail: [email protected]