O melhor motorista de São Paulo: Vovô

Fecho os olhos e revejo vovô dirigindo seu Ford 1948, preto de quatro portas, um verdadeiro "tanque de guerra" enorme e pesado comparado com os populares de hoje.

Vovô era filho de italiano, que tinha o meu nome, e veio de Treviso da Comuna do Vêneto. Era um chauffeur cuidadoso e lento, seu lema: "Devagar e sempre". Vivia fazendo testes com os futuros motoristas, seus netos, perguntando: "Se você estiver dirigindo e chupando uma laranja, com que mão segura?" E nós ingênuos embarcávamos na pegadinha, seguramos a laranja com a esquerda por que não somos canhotos. Aí ele vinha com tudo: "Seu burraldo, não se come enquanto dirigimos!" Às vezes não escapávamos de uns "croques" como ele chamava, a pequena agressão em nossa cabeça dado com a mão fechada e com o dedo maior um pouco acima dos demais.

Certa vez passando ao lado do Dante Aligheri, viu um casal uniformizado se beijando, não teve dúvidas e lascou: "Má quê pouca vergonha, não tem pai?!" E o casalzinho saiu correndo assustado. Quando teve um empório no bairro do Ipiranga, nos fartávamos com as paçoquinhas que surrupiávamos no balcão; ele só brigava quando era exagerado: "Ah moleque, se te pego…" Ficava só na ameaça.

Voltando ao motorista, vovô se vangloriava em nunca ter batido e quando fez o exame de habilitação, teve que demonstrar como fazer o carro pegar girando a manivela; se não tivesse força não tinha jeito: reprovado! Chegou então o dia do inesperado, o telefone tocou e a notícia era inacreditável, vovô havia batido o carro cruzando a Avenida Brasil e a vovó que estava ao seu lado foi a vítima quebrando um braço. Até o final de sua vida em 1989 em São José do Rio Preto ele recontava a história daquela sua única colisão: "O outro motorista estava bêbado e correndo feito um louco com seu "rabo-de-peixe" e avançou o sinal fechado". Não foi sua culpa. Para encerrar, implicava com os netos que falavam "ponta-cabeça" e bradava indignado que aquilo não tinha sentido; o certo era de cabeça para baixo. Vovô estava certo! A sua benção…amato nonno indimenticabile.

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