O médico da família

Os mais velhos hão de se lembrar do médico da família. Pessoa de absoluta confiança que entrava em nossas casas sem pedir licença. Era médico, amigo, confidente. Neste quesito só perdia para o pároco do bairro.

Morávamos na Vila Pompéia e ainda criança lembro-me de suas muitas visitas à nossa casa. Cuidava da verminose das crianças, da enxaqueca da mamãe e da bronquite da vovó. Ensinava à minha irmã adolescente medidas para evitar as espinhas e quando a gastrite de meu pai dava sinais, lá vinha o doutor sempre disposto e bem humorado. Nunca soube seu nome. Todos o chamávamos apenas de doutor. Usava óculos, cabelos já grisalhos e cultivava uma desajeitada barbicha. Depois da consulta o obrigatório cafezinho e o bolo caseiro, jamais rejeitado.

Com o tempo e com aparecimento das especializações em todas as áreas da medicina, os médicos da família foram perdendo espaço. Dor de ouvido? O bamba é o otorrinolaringologista. Dor de estômago? O chique era procurar – esse não ia às casas dos pacientes – o gastroenterologista. Infecção na bexiga passou a ser da competência do Urologista e assim por diante. Dava status comentar com os amigos no clube, no trabalho ou no cabeleireiro que se consultara com uma dessas sumidades.

Aqueles extraordinários e dedicados profissionais praticamente desapareceram. Alguns teimosos e obstinados ainda se arriscam na difícil e mal remunerada clinica geral, mas já sem o carisma e a confiança que inspiravam em outros tempos.

Desses abnegados e competentes profissionais da arte de Hipócrates só restou a lembrança. Lembrança de suas figuras com as inseparáveis maletas onde levavam o aparelho de pressão, o termômetro, alguns medicamentos de emergência e uma grande, uma imensa dose de carinho, de amor e de humanismo pelos seus clientes.

Dizem que é o progresso…

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