O Itaim e seus personagens

O Itaim tinha pessoas de vários tipos. Gente de certo nível intelectual, como seu Alfredo Cunha que era professor, e sua esposa dona Palmira também professora ambos do grupo escolar Aristides de Castro. Seus filhos também se encaminhavam para um nível de cultura bom. Geraldo Cunha era radialista trabalhava na rádio São Paulo. Era Rádio Ator. O outro estava prestes a se ordenar padre, mas abandonou a batina para ser um advogado e a Rosinha que seria uma professora. No mais o bairro era composto de gente simples todos trabalhadores e cada um com seu ofício. Naquele tempo quem tinha ofício tinha tudo. Estava apto para casar. Quando era torneiro mecânico, marceneiro então, era aprovação na hora. Mas tinha que ter uma profissão. Era a primeira coisa que o pai perguntava. Depois perguntava se tinha vícios. Tinha gente folclórica também. O poeta, um senhor negro que vivia fazendo poesias e as expunha na rua quando se encontrava com alguém, de preferência mulher, ou mesmo quando era um casal. Tinha artista, o nosso grande Mazzaropi, que morava na rua Paes de Araújo. O Anastácio, de um metro e vinte de altura que não tinha os dois braços. Nos ombros dois tocos de quando muito dez centímetros com alguns dedos. Ele fazia jogo de bicho. Escrevia maravilhosamente com os pés. Era de uma grande admiração por parte das pessoas. Viajava de ônibus normalmente subia no coletivo sozinho, mas não rejeitava a ajuda de ninguém que se propunha a ajudá-lo. Certa ocasião ele desceu no vale do Anhangabaú do ônibus 52 Itaim, ali próximo ao cine Don Pedro, ia andando sossegadamente quando varias pessoas vieram dar-lhe esmolas. Ele não aceitou. Disse: eu não peço esmolas, eu trabalho no Chalé de jogos no bairro do Itaim. O jogo ainda era permitido. Por outro lado tinham pessoas depressivas e que estavam sempre causando alguma preocupação à parentes ou amigos. Era o caso de Mario Brisa, membro de uma família de classe média. Certa ocasião ficou amuado e não falava com ninguém, por mais que familiares ou amigos quisessem saber o que estava acontecendo. Era difícil arrancar uma só palavra dele. Mario foi se definhando fisicamente. Um homem que se vestia bem já estava com roupas rotas. Andava sujo muitas moças se condoíam pois se lembravam dele com uma fisionomia bonita, e agora barbudo e sujo era uma outra pessoa – já um indigente que estava a caminho de morrer na sarjeta. Um dia ele roubou uma calça do seu cunhado, o Dondoca, filho de dona Izolina. Quando ele achou falta da roupa e flagrou o cunhado com ela tirou a roupa na marra no córrego do sapateiro debaixo da pinguela da rua João Cachoeira. Até a polícia foi chamada para resolver o caso. Um dia Mario sucumbiu na calçada da kopenhagen, rua Joaquim Floriano. Estava bichado. Suas feridas mostravam vermes. Chamado a ambulância do Sandú, os enfermeiros se recusaram a pegá-lo, tal era o estado lastimável que estava Mario Brisa. Foi quando passava pelo local Vicente Batateiro e ficou sabendo do que se passava. Muita gente já estava no local como curiosos. Vicente Batateiro fez um autêntico discurso. Eis aqui um brasileiro que até na sua morte é rejeitado pela sociedade hipócrita.
– Por acaso alguém de coragem me ajuda a colocá-lo na ambulância?
Um motorista de táxi e duas outras pessoas colocaram Mario Brisa na ambulância do Sandú.
Tinha também personagem valentões. Os mais conhecidos era Lito, Colo e Armandão, assíduos freqüentadores do bar central, rua Joaquim Floriano esquina rua Arnaldo. Colo e Lito eram violentos. Colo sempre procurava encrenca. Era considerado o rei da pernada. Era difícil pegá-lo. Quando colocava as duas mãos no chão era certeza que um dos pés ia à cara do outro. E olhe que pegou sempre pedreira pela frente. As chamadas brigas de cachorro grande.
Uma vez menosprezou um nordestino baixinho. Na discussão o chamou de baiano otário e outras coisas. Tomou uma peixeirada na barriga. Mesmo ferido correu mais de cem metros pela avenida Imperial (Horacio Lafer). Não resistindo ao ferimento, caiu. Socorrido, ficou vários dias entre a vida e a morte. Mas, as línguas diziam que ele se salvaria. Bicho ruim não morre, diziam varias pessoas. E realmente não morreu. Já Lito tinha outra característica, era mulherengo. Achava que as mulheres tinham que ser dele quando cismava, mesmo sendo casado. Um dia estava na calçada da Kopenhagen e viu uma mulata fora se série passando por ele, dirigiu-lhe gracejos. A mulher nem deu bola. Isso se repetiu por várias vezes. Lito não se conformava. Sempre conseguia seu intento mesmo que tivesse que ameaçar a mulher. Com aquela mulata não. Ela passava garbosa e ainda se mostrava esnobe. Um sábado à noite ela saía do cine Star com seu noivo, um cobrador de ônibus da CMTC. Tinha uma perna mais curta, usava uma bota pesada e mancava. Lito estava no bar ao lado. Ela, sem cerimônia parou e na cara dura disse: Porque você não mexe comigo agora, seu trouxa ?
– Você é muito gostosa e metida a besta, sabia?
Foi quando entrou em ação o noivo.
– Olha rapaz eu quero que pare de mexer com minha noiva.
– Sua noiva? Que mau gosto, hein gostosa? Justo com um cocho foi se arrumar.
– Olha aqui seu trouxa vou te mostrar quem é cocho.
– Quem, você? Para com isso palhaço!
Quando Lito viu, tomou um toco por baixo e foi ao chão.
Ninguém ali conseguiu acreditar que aquele valentão tinha rodado que nem um bêbado. Lito levantou e foi com tudo pra cima dele. Outro toco, e outro tombo. Era insistir e cair. Para finalizar, o baixinho jogou as mãos ao chão e com o pé que tinha aquela bota acertou o queixo do Lito que já sangrava. Ai entrou o Chicanu e segurou Lito enquanto o casal foi embora. Lito enfurecido passou a agredir Chicanú. Este franzino não podia encará-lo e, como ninguém se atrevia em tirar o Lito, vários ponta pés foram dados no fígado e abdômen. Chicanuzinho, como era chamado pelos amigos, morreu ali mesmo de hemorragia interna. Lito foi preso julgado e condenado a bons anos de cadeia.