Fui nesse famigerado Salão da Criança… e foi mesmo em 1962. Meu tio tinha uma Kombi e teve a ideia de levar a criançada. Uma dúzia de primos, todos com a mesma idade. Minha mãe foi de auxiliar. Acho que se arrependimento matasse, meu tio tinha estrebuchado ali mesmo naquela hora.
Lá fui eu, com a garotada fazendo fuzuê na Kombi (uma delícia!). Chegando ao Salão, vem palhaço, vai palhaço, vamos à Galera Vicking, ganhamos pasta de dentes anticárie Xavier, chinelos Arco Flex, caneta BIC, mata borrão, pipoca… e cachorro-quente. Foi aí que o GPS da vaca indicou o brejo! Minha mãe deu-me um hot dog besuntado de maionese e a salsicha insistia em não ficar no pão. Vendo-me atrapalhado, tentou ajudar. Enfia a salsicha para cá, empurra para lá, ajeita aqui… e “pluf”! Lá se foi a salsicha patinando pelo chão e se enchendo de confete!
Botei a boca no mundo! Toda atrapalhada e nervosa, minha mãe tentou me consolar: "Eu compro outro!". "Não quero, quero aquele!", respondi malcriadamente. Minha mãe, sem saber o que fazer, apelou ao meu tio. Este então, com pouca paciência, apanhou a salsicha do chão, limpou os confetes, meteu-a no pão e deu-me. "Toma, peste! Engole essa porcaria!". Mas eu não queria, porque estava sujo. "Então pega outro na carrocinha, sarna!". Bati novamente o pé e disse espichando o beiço: "Não quero outro, quero aquele!". Não queria outro e não queria aquele e, assim, fiquei infernizando as vidas de minha mãe e meu tio.
Fui então, seriamente ameaçado de levar uns tapas, assim, calei-me. Mas amarrei o burro. Em vista disso, antes que eu levasse uma surra, minha mãe resolveu por-me no gelo. Fui dar umas voltinhas, furioso com a salsicha, com minha mãe e com meu tio. Mas vai daí, que aparece um garoto com um ar mais ou menos estúpido, segurando uma bola de gás. Não pensei duas vezes. Descarreguei minha fúria enfiando a mão na cara do coitado e surrupie-lhe a bola, dando o fora dali, deixando o garoto chorando, sem ninguém dar-lhe atenção, para meu alívio. Quando apareci no grupo segurando a bola, todos suspeitaram do pior. Chegando em casa, saí da Kombi e fui correndo abrir o portão para mostrar a bola aos demais, mas… a bola escapou-me das mãos e lá se foi pelos ares. Novo berreiro… e bem… dormi quente, naquela noite…