O honesto mecânico do 2º Batalhão

Concetta foi o grande amor da sua vida. Por ela arriscou a própria vida durante anos à fio. Ela, dele sabia pouco, pois pouco ele contava sobre sua vida pessoal. Mas sobre os presentes recebidos, primeiro ela sentia ser ele um homem rico e generoso, e segundo que lhe dedicava um carinho todo especial. Não eram casados, embora juntos desfrutassem de um convívio harmonioso o que propiciou o nascimento de dois filhos homens. Com a família aumentada, aumentou também o seu amor à mulher e aos filhos, a dedicação era exemplar, cercava-os de conforto em todos os sentidos.
Mas Concetta muitas vezes ouvia o seu sexto sentido que lhe dizia haver algo de errado nas ausências constantes do companheiro que não seguia um padrão normal de horários principalmente o noturno. Ausentava-se por dias seguidos, e alta hora da noite entrava em casa. Aos poucos ela foi descobrindo outros endereços do amásio, uns suspeitos, pois não sabe quem eram os moradores, exemplo o da rua Abolição no Bexiga, outros ela de sobejo sabia serem eles de parentes dela e dele, caso da rua dos Gusmões onde moravam sua tia e prima. Sabia por amigos e parentes que ele era visto por horas seguidas num Cassino da cidade. Seria daí a fortuna do companheiro? Ela conjeturava. As jóias, adornos, relógios, e objetos de esmerada confecção entulhavam as gavetas e armários até a chegada de um baú onde sua grande fortuna foi acondicionada. Não restavam dúvidas. Gino era um homem incomum. Concetta agora tinha certeza.
Foi de forma imprevisível que Concetta viu a sua casa ser invadida pela polícia e esta lhe dar voz de prisão. O mundo desabou sobre sua cabeça. Pensou logo nos filhos que ficaram ignorados, e no seu Gino que como sempre estava ausente.
Na 4ª Delegacia onde ficara preso ficou conhecendo em pormenores a vida do seu amásio. Era um italiano como ela, deportado que fora da França, chegou ao Brasil pelo porto de Santos. Esteve em São Paulo antes de fazer um giro pelo Uruguai, Argentina, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, para finalmente se fixar em São Paulo.
A Interpol já havia passado para a polícia de São Paulo sua ficha criminosa onde se lia: "Trata-se de um elemento perigoso, condenado por vários crimes”.
Concetta suplicou pela vida dos filhos que sozinhos ficaram na casa, e pediu aos policiais que os levassem à casa de sua tia na rua dos Gusmões. Foi atendida. Mas por segundas intenções. A polícia sabia que o Gino iria ter aos filhos. E montou um grande aparato policial para prendê-lo.
Entre policiais à paisana e fardados, 65 ficaram em pontos estratégicos nas imediações da rua dos Gusmões.
Na madrugada o pai chegou para ver os filhos. Estando a porta fechada, arrombou-a e foi ter aos filhos que dormiam em um sofá. Não chegou a acordá-los. Um policial ao seu encalço deu-lhe voz de prisão. A reação veio de imediato, como um animal acuado, sacou da arma e com vários disparos feriu mortalmente seu perseguidor.
Por 10 horas a polícia cercou toda a região, e intenso tiroteio acordou os moradores que presenciaram um homem saltando os telhados das casas tentando a fuga. Muitos apontavam gritando: "é o homem gato".
Gino Amleto Meneghetti sobreviveu a sua amada Concetta.
Depois da prisão viveu na senda do crime por mais 50 anos.
Ano de 1926.