Feirante por uns dias

Nosso vizinho da direita era feirante. Vendia Frangos, ovos também. Era português. Seu Antonio, como todo bom português, levava em seu caminhão os engradados de frangos, sua mulher dona Albina, deixava na feira os produtos a serem vendidos e sua mulher a vender. Ele mesmo não queria saber de nada como o batente. Dona Albina era analfabeta de todo. Não sabia fazer a letra Ó, nem com o fundo do copo. Mas dinheiro era com ela mesmo. Contava dinheiro e dava o troco de dar inveja aos maiores alfabetizados deste Brasil. Era uma grande mulher, muito trabalhadeira. Aos domingos a feira tinha mais gente do que nos dias de semana. Então ela pediu para minha mãe, se eu e meu irmão José podíamos ajudar para esse serviço até pouco mais do meio do domingo. Vinte cruzeiros era o que ganhávamos. Junto ia o filho dela, o Elisio. E lá fomos nós. Ficávamos na banca de ovos. Saiamos às cinco horas da manhã, e às nove horas era a hora do lanche. Um tremendo sanduíche de mortadela, do tamanho do filão de pão e um pingado ou refrigerante a escolher. Eu, aos 14 anos, exibido como sempre, em vez de ficar do lado de dentro da banca ficava no meio da feira incentivando as pessoas a comprar. Ovos de prima, dona, saído ontem das galinhas para sua geladeira, ia gritando enquanto outros feirantes gritavam suas mercadorias. Era uma tremenda farra.
Não contente com isso, no domingo seguinte peguei um avental que seria do seu Antonio e coloquei. Ele vinha quase no chão, mais parecia um vestido. Peguei dois frangos em cada mão, e começava a gritar olha os frangos caipiras, vejam como eles piam. E imitava o frango caipira. Piarrr. Não é que deu certo! Começamos a vender mais frango do que o concorrente ao lado. Dona Albina ria de canto a canto da boca. Ah, tem um segredinho. Alem dos vinte cruzeiros que eu ganhava, colocava uns troquinhos a mais colocava no bolso. Sabe que é? Na hora de prestar contas, ficava no meu bolso sem querer. Qua, qua,qua,qua,! Tudo ia muito bem, até que um dia aconteceu algo inesperado. Na volta para casa eu, meu irmão e o Elisio, íamos mexendo com todo mundo. Um dia atiramos mamona num cara que vinha dirigindo seu carro. Ele seguiu o caminhão e deu uma fechada no seu Antonio, que pensando se tratar de roubo, pegou uma barra de ferro e partiu para cima do cara. Depois das explicações e que seu Antonio ficou sabendo, levamos uma tremenda bronca. Chegando na casa dele o Elisio apanhou, e para que não levasse uma surra maior, disse que tinha sido eu e meu irmão, que tinha jogado as mamonas no cara. Juro que só joguei uma (rsrsrs). A fofoqueira da Clara, irmã do Elisio foi correndinho falar para minha mãe. Ai ela nos proibiu de ir doravante. Que pena…