O Viaduto do Chá era o paraíso dos ambulantes nos anos 80.
Lembro-me particularmente de um ambulante que tinha um defeito físico, andava com um par de muletas antigas e vendia grilos. Seu ponto era em frente ao prédio do atual Shopping Light, junto à escada que desce para o Anhangabaú.
Os grilos nada mais eram que pedacinhos de madeira pintados em cores berrantes, com perninhas de arame e com uma borracha de pressão embaixo da madeira. Quando apertado no chão por processo de sucção, o grilo em segundos saltava.
Eram feitos pelo próprio vendedor ambulante que se vangloriava do seu produto e, ao vendê-lo, fazia questão de testá-lo, mostrando para o freguês a altura que os grilos alcançavam. Fazia mesmo um controle de qualidade, não vendendo aqueles que, por algum motivo, pulavam muito baixo. Fui sua freguesa por um bom tempo, comprava no atacado, uma dúzia de cada vez para levar para os filhos e sobrinhos.
Lembro-me de algumas situações no mínimo engraçadas.
Como o homem do grilo fazia questão de testar o produto, me vejo um dia na hora do almoço, paramentada de executiva, agachada no viaduto, testando junto com o vendedor e por insistência dele os grilos que pretendia comprar, e torcendo para que não passasse nenhum colega, já que eu trabalhava na Rua XV de Novembro.
Numa das vezes que precisava comprar os grilos, não localizei o ambulante, perguntei para alguns dos outros marreteiros do pedaço e acabei deixando com um deles o meu cartão de visitas.
Passado alguns dias, a moça da recepção do fino prédio no qual trabalhava se comunica comigo por telefone mal contendo o riso: “Está aqui na recepção um senhor a sua procura, me pediu para falar que é "o homem dos grilos"”. Não é que ele tinha trazido o que achava ser "minha encomenda"?
Não sei por que, mas nunca soube ou perguntei seu nome, nem ele fez questão de se identificar. Trabalhei por muito tempo no centro de São Paulo, na hora do almoço sempre passava pelo Viaduto do Chá e num dado momento comecei a sentir falta do homem do grilo.
Acabei perguntando para um colega seu e fiquei sabendo que não era mais ambulante e que estava ficando rico, pois um inglês, ao passar pelo viaduto, ficou maravilhado com os grilos e comprou toda a sua produção. O homem do grilo agora, segundo ele, exportava com exclusividade seu produto para a Inglaterra.
Esses grilos foram copiados e hoje custam caro nas lojas de brinquedos pedagógicos, mas nem de longe se equiparam aos grilos do Viaduto do Chá.
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