A história que vou contar aconteceu quando eu tinha apenas dez anos. O ano era de 1944 o Brasil tinha se Unido aos aliados da II Guerra Mundial contra a Alemanha e com isso concordou em enviar tropas para combater na Itália contra os nazistas.
Isso fez com que fosse formada uma forca especial que foi chamada de Força Expedicionária Brasileira (FBE). O meu primo Rafael Felix, filho do irmão mais velho do meu pai o Luiz, servia o Exército no quartel de Quitauna e entre muitos outros foi convocado a essa força expedicionária e quando já se encontrava no Rio de Janeiro pronto para embarcar, o meu tio Luiz Felix viajou ao Rio de Janeiro para se despedir dele. Naquela noite que ele conseguiu se encontrar com o filho, foi em um bar para tomar umas cervejas juntos. Não sei se as cervejas super geladas foram a causa, mas coincidentemente nos dias que se seguiram meu primo adoeceu gravemente e teve que ser internado no hospital militar, e foi diagnosticado com uma pneumonia dupla e quase morreu. Com isso o Navio que ele deveria embarcar saiu sem ele. E no fim ele acabou por não seguir para a Itália nem mesmo em outra embarcação que sairia em seguida e que já era a última que levaria soldados para o velho continente.
Não sei se podemos dizer que foi sorte dele de não ter ido, mas o mesmo não aconteceu com muitos outros rapazes na época. No Bairro do Braz tínhamos muitos que seguiram para o front, o Osvaldinho que era da Rua Caetano Pinto nosso vizinho filho do Sr. Osvaldo e D. Maria Varella, família de imigrantes portugueses, outro que lembro era o Antonio (não lembro seu sobrenome) era filho de um casal de imigrantes espanhóis e que eram donos de um empório na Rua Carneiro Leão donde residiam, e muitos outros das redondezas. O Osvaldinho que era muito bom de bola jogava no famoso, na época, time de várzea XI Milicianos e ele era um dos destaques da defesa do time . O tempo passou e a guerra seguia sangrenta na Europa, com os brasileiros estacionados na Itália e fazendo um bom papel.
Mas já no começo do ano de 45 e já com a guerra chegando ao fim, tantas eram as derrotas nazistas. Lembro que eu estava no segundo ano primário do Romão Puigari e entrava no segundo turno das 11 às 2 da tarde e no fim do período quando vínhamos para casa eu e o Pedrinho Careca, meu amigo inseparável, notamos uma comoção muito grande na porta da sede do clube XI Milicianos e aí soubemos que parecia que o Varella tinha morrido na guerra. Os pais dele inconformados choravam muito, pois tinha recebido um telegrama do Ministério do Exército que dava ele como desaparecido em combate.
Já naquele momento todos os amigos do Clube começaram a fazer uma homenagem póstuma ao Osvaldinho. E com uma manta roxa sobre a enorme mesa de ping pong que tantas vezes ele disputou campeonatos desse jogo, pois também era craque, uma foto dele foi colocada no centro da mesa cercada de vasos de flores e velas acesas durante dois dias que durou o velório. E para surpresa geral no terceiro dia chegou um outro telegrama: Que dizia que ele tinha sido aprisionado pelos inimigos e que se encontrava em um campo de concentração nazista.
Lembro muito bem desse momento da festa que fizemos todos, com o Eufrásio, o Fanfa, o Moche subindo na mesa de ping pong e chutando todas as flores e velas de cima, cantando e dando vivas ao Varella e a Gloriosa Bandeira dos Milicianos retornar ao alto do pau, pois se encontrava a meio em homenagem póstuma ao amigo. Aí ficamos aguardando o interminável fim da guerra que foi só acontecer em Maio.
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