O guarda-chuva

Seu nome era Jaime. Ele cursava o científico e eu o clássico no Colégio Alberto Levy, no bairro de Indianópolis, e às vezes na hora do recreio a gente se esbarrava e jogava conversa fora. O Jaime era muito bonito, tinha um ar intelectual que fazia com que as meninas de A á Z esperassem, pelo menos, ouvir dele um oi. Daí eu tinha que aguentar as amigas torcendo para que nossos esbarrões se tornassem de fato, uma paquera.<br><br>No colégio o Jaime tinha a fama de ótimo fotógrafo e acabou me convencendo a posar para umas fotos e assim, numa tarde de verão, suas lentes captaram (em preto e branco) belíssimos momentos no Parque do Ibirapuera. Até hoje tenho as fotos, as minhas preferidas.<br><br>As fotos nos aproximaram e passamos a ficar mais tempo juntos no recreio. Enquanto isso as minhas notas de matemática, matéria que eu odiava, começaram a cair e então o meu pai, a essa altura já bravo e preocupado, sugeriu que eu tivesse algumas aulas particulares. O Jaime ficou sabendo e se ofereceu para me ensinar. E em alguns dias da semana lá vinha o Jaime da sua casa na Avenida Piassanguaba, se não me falha a memória, a Avenida Indianópolis para a minha casa, em Moema.<br><br>Nas primeiras aulas eu me preocupava mais em me arrumar e ficar toda linda do que propriamente nos números, mas aos poucos alguns mistérios da matemática foram desvendados, passei a fazer bem melhor os exercícios em classe e a essa altura a paquera, a troca de olhares havia se intensificado, enfim as aulas já aconteciam com alguns suspiros!<br><br>Numa tarde de muita chuva em que achei até que o Jaime não vinha mais para dar aula, a campainha toca,abro a porta e vejo o meu professor, a minha paquera de guarda-chuva preto. Nossa, a cena foi terrível demais! Um dos meninos mais interessantes e paquerados do colégio, ali na minha frente de guarda-chuva. Mal prestei atenção na aula e não via a hora dela acabar. O Jaime foi embora, corri para o telefone para contar para as minhas amigas a cena mais horrorosa do planeta e para meu consolo todas foram unânimes: eu tinha toda razão!<br><br>Os dias foram seguindo e eu, com a ajuda das integrantes do clube da Luluzinha, fui me esquivando do Jaime, fui arrumando desculpas para não ter mais aulas, às vezes nem saia para o recreio. Ele telefonou uma, duas vezes pedindo para a gente conversar, mas como eu podia explicar o que não tem explicação?<br><br>Um dia tomei coragem agradeci ao Jaime todas as aulas dadas, dei uma desculpa qualquer para que as mesmas não continuassem, lhe dei um beijo no rosto e prometi dançar com ele na próxima festinha e quando voltei para a classe, respirei mais tranquila, finalmente eu tinha me livrado do menino do guarda-chuva preto.<br><br>Até hoje quando vejo algum cara bonito de guarda-chuva acabo rindo e lembrando que numa tarde chuvosa deixei de suspirar por um menino incrível só porque ele veio a minha casa de guarda-chuva.Adolescência é uma fase estranha, fala sério!<br><br>E-mail: [email protected]<br>