Desde pequeno sempre tive um temperamento forte e personalidade marcante. Isso sempre me colocou em posição de destaque. Lorinho (quase ruivo), cabelos encaracolados e olhos pretos. Era branco como cera. Falava muito bem, o que fez com que professores, em audições escolares, sempre me convocassem para ser o apresentador. Foi um treinamento para me tornar desinibido em público.
Por ter entrado com pouca idade no primário, fui obrigado a fazer duas vezes a 5ª série (ou admissão ao ginásio), até completar idade para ingressar no ginásio (naquele tempo os estudos eram tratados de outra forma, o que hoje considero altamente "desinteligente"). Para atingir os 10 anos completos exigidos pelo ME e ingressar no ginásio, fui estudar no Liceu Tiradentes no Sumaré. O colégio era particular e o proprietário e diretor do estabelecimento escolar era primo do meu pai (Prof. Luciano Roberto).
No final do primeiro trimestre havia tirado a nota máxima em geografia.
O Prof. Luciano conversou com meu pai pedindo autorização para que eu me apresentasse num programa infantil da TV Tupi: "Sabatinas Maisena". Apresentado por Heitor de Andrade, era um programa que testava o conhecimento de alunos premiando a escola do aluno vencedor.
Ao entrar nos estúdios da Tupi fiquei fascinado. Os refletores, o cheiro do ambiente, atores conhecidos desfilando pelos corredores. Era 1961, a televisão já estava atingindo patamares profissionais muito avançados. Fui vencedor no Sabatinas.
Ao terminar o programa, fui procurado por uma pessoa que perguntou se eu poderia interpretar o anjinho da asa quebrada no Sítio do Picapau Amarelo (a primeira versão, com a Lúcia Lambertini no papel de Emília). Ele explicou que meus cabelos loiros, encaracolados e o fato de aparentar menos idade do que tinha ajudava no personagem. Já tinha a autorização de meu pai por escrito para a Sabatina, e foi aproveitada para a apresentação. Me apresentei e nem meus pais souberam disso, pois o programa era ao vivo. Assim começou minha paixão pelas artes cênicas. Outros convites vieram, outros trabalhos feitos, mas sempre procurei esconder de meus pais, especialmente de minha mãe, que não queria "artista" na família.
Não parei de frequentar a Tupi. Travei amizades e dentre elas uma muito especial: Lisa Negri. Uma atriz de rara beleza e que foi a minha primeira paixão infantil nunca realizada. Claro que a Lisa só via em mim um pequeno amigo.
Uma tarde recebi o convite para participar da gravação (sim, eram as primeiras experiências com o vídeo-tape) de um programa chamado TV de Vanguarda. Eram grandes textos teatrais encenados. Estavam montando "Desejo Sobre Os Olmos" (de Eugene O'Neill), Laura Cardoso, Lima Duarte, Juca de Oliveira eram os protagonistas. Eu faria um jovem filho, caipira interiorano dos Estados Unidos.
A gravação atravessaria a noite. Eu sabia que minha mãe jamais permitiria.
Não contei a ninguém. Na noite marcada, fui para meu quarto, esperei um pouco… ajeitei um cobertor enrolado no lugar do meu corpo, cobri com o lençol e a colcha e sorrateiramente pulei a janela para o quintal e a seguir pulei o muro para a rua.
Previamente havia pedido a cumplicidade de um vizinho mais novo que eu, o Luizinho. Pegamos um táxi e fomos para a Tupi. É preciso confessar que fui apavorado, pois naquela época eram os taxistas que assaltavam os passageiros (como as coisas mudaram). A gravação durou a madrugada toda. O coitado do Luizinho conseguiu tirar uma soneca em cima do grande cesto de vime, que continha os sanduíches que a padaria Real mandava para suprir a fome de quem trabalhava no estúdio de madrugada. Quase cinco da manhã terminou o trabalho. Novo receio ao pegar o táxi de volta para casa.
Mas quando o táxi entrou na descida da Albion, pude ver o que me aguardava.
Eu morava na esquina da Albion com a Guaricanga, no portão estava minha mãe em pé, havia duas viaturas da rádio patrulha mal estacionadas na rua. Três policiais conversavam com minha mãe. Não vi outra alternativa a não ser pagar o táxi e descer um pouco antes de casa.
Pedi ao Luiz que fosse para casa e não fizesse barulho.
Quando minha mãe me viu quase desmaiou, agradeceu e dispensou as viaturas. Passou uma tremenda raspança e me mandou para o quarto, para que aguardasse a surra que levaria do meu pai quando ele chegasse.
Tenho que interromper a narrativa para explicar que meu pai chamara meu primo na Vila Mariana e ambos procuravam por meu corpo ou no Hospital das Clínicas ou no IML.
O drama já estava armado. Meu pai chegou, me deu uns tapas no traseiro além de uma tremenda lição de moral.
Bem, para encurtar história, minha mãe, no dia seguinte, tratou de cortar o fio da televisão, dizendo que minha carreira artística estava encerrada ali naquele corte.
É obvio que não pude assistir minha apresentação em "Desejo Sob Os Olmos". Mas também é obvio que isso em nada interferiu na minha carreira como ator. Pois estou atuando até os dias de hoje. Mas até hoje me pergunto: cadê esse tal de "glamour" da vida de artista?
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