O simples ato de fazer a barba evoca lembranças de nossos Pais e Avós, que nos ensinaram como fazê-lo, e muito bem feito. Nada de barbeadores elétricos, barba bem feita é com lâmina mesmo. Lembro-me de que, quando ainda era criança, pequenino e curioso, observava meu pai fazendo a barba e perguntava quando seria meu momento de aderir a este ritual diário exclusivo do mundo masculino. Meu velho pai dizia: – "Quando você crescer só mais um pouquinho, meu filho"!
Mas, com toda a paciência do mundo, ele ensinava um pouquinho mais, todos os dias:
"Preste atenção, meu filho: você vai pegar a lâmina, colocar aqui dentro do aparelho, mas só quando estiver adulto, pois essas lâminas podem cortar seu dedo e machucar"… "então, você vai passar no rosto, assim"…
Se eu fechar os olhos, posso até sentir o cheiro da espuma de barba, trabalhada com habilidade no pote de louça branca. O pincel de barba, macio, resistiu durante anos. As lâminas, encaixadas no aparelho de metal, eram finas e afiadas. Lembro até mesmo das marcas dos produtos, pois quando meu pai terminava seu barbear, lavava cuidadosamente seus pertences e então, muito sorrateiramente, lá ia o garoto mexer nos objetos. As lâminas eram de várias marcas, como Big-Ben, Bristol, Gillette, Wilkinson ou Sigma. Talvez mudassem, pois sempre existiu a busca pela mais afiada e que cortasse mais rente. O pincel era da marca "Batik", a espuma era Bozanno e a "água-de-barba" era Willians.
Mas este era o ritual da barba "caseira", feita no dia a dia. Existiam também as "barbeadas especiais", sempre feitas nas ocasiões importantes (festas, casamentos, batizados), e essas eram privilégio do barbeiro do bairro, daqueles que usavam toalhas quentes (para "abrir os poros", como diziam) e suas afiadíssimas navalhas.
Não me lembro o nome do barbeiro que meu pai frequentava, que a cada dois meses também aparava seus cabelos grisalhos, mas sei que, em meu bairro, ainda hoje existem dois profissionais, verdadeiros Mestres da tesoura & navalha, que há muito tempo fazem a história do barbear em São Paulo, e desta história – e da história do bairro – também são partes vivas e testemunhas.
Um deles é o Orlando, carinhosamente chamado de "Italiano". Seu salão está na Rua José de Queiróz Aranha, quase esquina com a Rua Domingos de Morais, bem próximo ao Largo Ana Rosa, no coração do bairro. Há 40 anos no mesmo ponto, e com mais de 50 de profissão, está lá o Orlandinho cortando cabelos, aparando bigodes, fazendo barbas e cantando suas canções italianas, numa saudade incrível de uma Itália que ele não vê há décadas, mas transpirando um amor incrível pela Vila Mariana e por sua São Paulo. Sócio do Tênis Clube da Aclimação, Orlandinho ainda arrisca, de vez em quando, uma partida só para se divertir.
Tem também o "Seu Chiquinho". Filho de italianos, e com seus 86 anos, o Sr. Francisco Villano está na Rua França Pinto exercendo sua profissão com maestria há mais de 75 anos (haja experiência!) e visitá-lo é ouvir incríveis histórias sobre o passado do bairro e da cidade, que ele viu crescer ao longo de tantas décadas, e é certeza, também, de uma barba bem feita e alinhada!
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