O fantasma da Vila Olímpia

Lembro que o centro de São Paulo era o maior lugar do mundo e a seção de brinquedos do Mappin, o melhor. Eu me lembro de descer escadarias do Vale do Anhagabaú dentro de um carrinho Matchbox. Eu lembro que os ônibus da CMTC eram azuis e ninguém gostava de sentar no banco dos bobos.

Lembro-me da Vila Olímpia ainda vila. Papo no portão, futebol na rua, esconde-esconde sem medo, sobrado sem grade, risada fiada sem ou quase sem fim. Eu me lembro dos táxis sem o banco ao lado do motorista. Eu me lembro do vazio após o gol da Argentina versus Peru em 78. Um skylab na cabeça de cada brasileiro.

Eu lembro que um cruzeiro comprava um cinema e uma porção de bala paulistinha. Lembro que filme de astronauta era melhor que de cowboy.
Porque astronauta tinha futuro.

Eu me lembro de ter bronquite e ser magro. Eu me lembro de brincar sozinho e ter uma Monark roxa modelo 73. Monarks eram fortes, mas Calois eram mais rápidas. Acho que pedalo ainda assim.

Lembro que todas as ruas tinham duas mãos na Vila Olímpia. E que na esquina de sempre tinha batida para a gente comentar o azar alheio e suspirar nossa sorte. Na Avenida Carsoso de Mello, meu pai e meu tio Francisco trabalhavam na representação dos azulejos Cesaca, que tinha como logomarca um dragão cospe-fogo.

Não me lembro que dia o Edifício Joelma incendiou-se, mas me lembro de gente pulando como no 11 de setembro. Lembro bem que quase ninguém morria e não havia guerra, violência ou sururu na delegacia. Só o Pantaleão perguntando "é mentira, Terta?".

Lembro-me de um surto de meningite e de uma fila imensa para um soldado me vacinar. Não me lembro de ser inoculado contra espinhas, apatia e paixão. Eu me lembro de escrever o nome de Giusa, colega de classe, na calçada. E dela escrever dentro do coração um nome que não era o meu na carteira de fórmica triste.

Lembro-me de discotecas na garagem, meninas bonitas vestindo batas, sapato bico fino, brigas, beijos, ciúme, lampejos e outros tantos momentos e nomes quase tragados pelo funil do tempo. Gente boa e gente ruim, mas nem todas tão ruins assim. Tanta coisa boa e ruim, mas nem todas tão boas de lembrar assim.

Lembro-me de um mendigo chamado Pelezinho, um bêbado chamado Aldo, um frentista chamado Jacaré, um cachorro chamado Trambique, uma professora chamada Mirna, uma prostituta chamada Cantora, um menino minotauro e um fantasma.

Ano passado, escondido na madrugada, voltei à Vila Olímpia. Andei pelas calçadas onde eu rolava. Onde foi um depósito da Skol, onde joguei bola. Agora adolescentes fazem fila para se embebedar pela vida adulta.

Na garagem onde tinha festa com a Giusa, agora tem outro menor abandonado. Olhei a casa onde morei, amei, sofri, vivi. E ela me olhou de volta como um endereço comercial de alguma coisa que não comprei. E bem na esquina da Avenida Cardoso de Melo com a Rua Nova Cidade, encontro a casa de uma velha senhora reclusa que eu achava meio bruxa. Agora vendem edredons pesados e lençóis floridos lá. Na vitrine, vejo um vulto refletido e grito: "Fantasma!".

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