Dezessete horas – década de 70 (não posso precisar o ano, vaga-me a memória). Poderia também ser um mês qualquer, apenas sei que não chovia, o sol ainda emanava seus últimos raios, num final de tarde quente, naquela que representava a terra da garoa e dos lampiões de gás. Era o momento em que deixava meu trabalho e saia para o lanche da tarde misturando-me ao movimento intenso de transeuntes, cortando as ruas centrais da capital paulista.
À hora, propiciava-me percorrer as vitrines, comungar o movimento, a paisagem breve da Praça Ramos de Azevedo, com seus pássaros trinando, gatos aos pares nas gramas, bancos dispersos, quantos vazios, admirar o imponente Viaduto do Chá – majestosa obra de concreto e pedra – o Vale do Anhangabaú. Esse era o cenário que, através da janela, terceiro andar da Rua Formosa, 367, Biblioteca David Santos do Sindicato dos Contabilistas de São Paulo, podia observar durante as oito horas que ali permanecia, ao mesmo tempo ser por eles observada.
Na maioria das tardes procurava fazê-la especial. Era um instante só meu, quando me permitia extravasar minha veia criativa e buscar cenários que pudessem completar as horas dispensadas entre o silêncio da belíssima sala, dos livros nas estantes de madeira, ambiente puramente técnico, onde números e contas eram a constante – seis anos puderam contabilizar minha trajetória profissional (1973/1979). Recém formada Bibliotecária, a primeira a ser contratada pela instituição, fora meu grande desafio sua organização.
Entretanto, essa tarde era realmente diferente, inusitada, digna de crédito e nota. Os amplos degraus do imponente Teatro Municipal cediam espaço para que um escritor irreverente colocasse uma cadeira, uma pequena mesa e sobre ela alguns livros espalhados, quando ao seu redor, formava-se extensa fila de admiradores, de fãs, de curiosos simplesmente, inclusive lá estava eu admirando o movimento curioso.
Era o saudoso ator e teatrólogo Plínio Marcos, que bem próximo de meus olhos se apresentava: cabelos decompostos, roupas não aprumadas, sorriso nos lábios, fala compassiva, respostas a cada questão, caneta nas mãos declinando palavras e um rabisco num de seus livros, que me passou desapercebido o título, dado o assombro que senti naquele instante, mediante o inesperado do encontro.
Muitos anos após, era-lhe agraciada homenagem, quando empresta seu nome a uma das bibliotecas do Programa Ribeirão das Letras – na cidade de Ribeirão Preto – quando então, já apartada da megalópole, participava como coordenadora, implantando bibliotecas num programa magistral nos quatro anos que se seguiram ao início do século XXI (2000/2004), momento em que me vem à tona, tão visível, a imagem daquela tarde.
Conhecia-o através da televisão, das novelas, das entrevistas, mas agora, ali bem na minha frente me era muito estranho. Creio que superestimamos uma pessoa na tela, mas não imaginamos que ela possa ser comum, como qualquer um de nós. E ele ali estava em carne e osso, não mais apenas televisivo. Agora era o escritor que tornava público sua obra literária.
Porém, mal supor eu pudera saber que, anos após estaria a frente de um computador, numa terça-feira chuvosa (14/12/2010) desta cidade paulista – São Carlos – retomando àquela cena, a recolher retalhos, alinhavando memórias, tecendo as linhas de minhas lembranças, com fios de saudade, ao ponto de poder retornar a São Paulo, minha cidade. Um tempo que tão bem soube tecer meu presente!
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