O escrevedor de cartas

Era 1965, a situação do país era muito ruim. Fazia um ano que os militares estavam no poder, e o Brasil numa forte recessão. Havia muito desemprego. E nesse meio estava Otávio, que era motorista de ônibus. Pensou em voltar para sua terrinha, no Piauí, mas quando foi ao correio central (avenida São João esquina do Anhangabaú), percebeu que tinha gente que não sabia escrever e recorria a outras pessoas ditando as palavras que queriam dizer a seus parentes, no balcão de mármore do correio.
Foi aí que lhe veio a sua cabeça fazer aquilo para salvar o rango de todo dia, pois nem no SAPS ele podia mais ir. Com um caixote de bacalhau, ele fez uma mesinha, e nela uma inscrição: Escrevedor de cartas. Sentado num banquinho ficava a escrever cartas para as pessoas que não sabiam escrever ou que tinha uma letra muito feia.
Com seu português, seu português sofrível, mas uma boa caligrafia, ele ia escrevendo para a freguesia que já estava se formando. Já até fila havia. Otavio reinava sozinho em frente a enorme porta dos correios. Caprichava na sua letra, gostava de pentear as maiúsculas. A letra Ó ele fazia em aberto. Uma ponta por dentro e a outra por fora. Na letra B, ele colocava duas bordas na beirada, uma em cima e outra em baixo.
Quando aqueles que mal sabiam ler, e viam a escrita, se mostravam felizes. Ele mesmo Otavio postava as cartas com o dinheiro que as pessoas davam além do que ele cobrava.
Um homem que todo mês ia, no correio e escrevia mal traçadas linhas já estava ali de pé em frente ao caixote de bacalhau ditando o que queria mandar.
– Mãinha, espero que estas mal traçadas linhas encontrem à senhora muito bem. Aqui em Sum Paulo, a coisa tá muito ruim. Os prédio estão tudo parado, e o serviço é pouco. Minhas mãos já não estão muito calejadas porque estou 20 dias sem trabalhar. Minha cardeneta da caixa econômica já indo pro fim. Quero que a senhora saiba que estou tumando o chá de carquejo que a senhora mando. Aqui os paulista toma cum pinga.

Daí para frente Otavio é que dava o retoque final na missiva.
Sem mais, na esperança de esta encontrar todos cheios de saúde, encerro e deixo um abraço a todos.
Respeitosamente, Severino Araújo da Silva.

A seguir veio uma moça que estava em São Paulo, poucos meses.

Prezada irmã Marinalva.
Saudações.
Espero que esta posta restante chegue a suas mãos, com você exaltante de saúde. Estou muito bem. Josenildo arrumou um emprego de faxineiro na alpargatas, e moro perto da estação do norte, numa casa junto de outras moças, também do nordeste.
Nos domingos vô na missa e a noite no forró do Pedro Sertanejo, que fica no Belém, aqui perto do Brás. A muié do Josenildo vai me arrumar um serviço de empregada doméstica no Jardim Paulista. Ai eu não vô pagá aluguel, e posso mandar um dinheirinho para mãinha. A patroa dá comida de graça também.

A seguir veio Josélicio. Com sua escrita em rascunho já foi ditando e mandou Otavio caprichar na letra.

Pai.
Aqui está tudo muito bem, arrumei um emprego na Casa da Bóia, na rua Florêncio de Abreu, e já tô ganhando uma boa nota. À noite consegui um serviço de revisão de lâmpadas, no banco do Brasil, trabalho ate às 11 horas da noite. Espero que o senhor tenha comprado aquelas vaquinhas com o dinheiro que mandei. Agora vou mandar dinheiro para o senhor comprar as cabritas.
Já mandou fazer o poço artesiano? Quando tiver pronto faz uma cacimba no sitio do padrinho para ele também ter água.
Ontem fui no forró do Zé Lagoa, na em Capela do Socorro. Foi muito legal. Luiz Gonzaga toco lá. Foi um sucesso. No domingo passado fui na festa joanina, da Portuguesa, um time de futebol que tem aqui. A festa é no parque Shangai, um parque de diversão muito batuta.

Éderson era o ultimo da fila, estava triste. Dizia que estava até àquela hora da tarde sem comer, só para vir até a cidade para mandar uma carta para a família. Otavio foi ouvindo e colocando no papel o que ele tinha a dizer.

Pai, Mãe.
Não agüento mais ficar nessa cidade maldita. Os senhores e a senhora tinham razão quando dizia que cidade grande só é bão para quem tem estudo. Vou voltar para o meu torrão. Prefiro ficar torrado trabalhando de sol a sol na roça do que trabalhar aqui que nem cachorro para ganhar uma mixaria. Não vou poder ir agora porque fui roubado e preciso tirar meus documentos de novo. Posta-me uma carta dizendo como tá tudo por ai.
Um beijo de seu filho querido
Éderson.

E assim de carta em carta Otavio ia trabalhando. O que era somente um quebra galho, se tornou definitivo, e ainda na metade dos anos 1980, Otavio estava escrevendo cartas. Não era mais aquele caixote de bacalhau da metade dos anos 1960, e sim uma banquinha desmontável, com um tampo envernizado.

e-mail do autor: [email protected]