O Ipiranga é um bairro histórico. Ele é carinhosamente chamado de “a colina histórica”, jargão usado no início dos anos 1950 por cronistas esportivos por causa do grande Clube Atlético Ypiranga, fundado em 1906, que estava sempre entre os primeiros colocados, e dava muito calor ao trio de ferro do futebol paulista: Palmeiras, Corinthians e São Paulo.<br>Sem contar que foi o responsável pela exportação de grandes jogadores para os times de futebol do Brasil e do Exterior. Mas a grande história do bairro do Ipiranga vem do século XIX, com a libertação do Brasil de seu colonizador, Portugal, quando foi dado o grito de independência, as margens do Riacho do Ipiranga.<br>Mas a par disso o bairro do Ipiranga tem algo de muito Carinhoso. Um salão de baile que tem justamente esse nome. O Carinhoso me é familiar há muito tempo, pois minha amiga Regina era uma freqüentadora habitue desse salão de baile. A cada vez que ela lá ia falava muito bem do salão e de sua freqüência. Outras pessoas também diziam maravilhas. Eu nunca tinha ido lá. Também há muito não freqüento salões de baile.<br>Mas em minha mente sempre vem esse nome, Carinhoso. Um nome imortalizado por Pixinguinha na sua mais famosa composição que todos os musicistas faziam questão de executar, e os intérpretes de colocar sua voz em cima.<br>Então resolvi ir até lá para conhecer o tal salão. Chegando à Rua Leais Patriotas, 250, fui recebido por Augusto Aderaldo Silva, o proprietário, desde a sua fundação, a cinco de novembro de 1974. Bem falante e gentil ia calmamente contando como começou.<br>Quando ele resolveu criar um salão de baile teve o apoio de seu pai, de nome Augusto Messias Borges, e o primeiro endereço foi à Rua do Orfanato. Então ele, o pai, mais o garçom, o Ditinho, um casal, que a esposa era a dona Ana e a orquestra. Era um total de onze pessoas.<br>Aliás me foi mostrada uma margarida estilizada com onze pétalas. É o símbolo do que reflete as onze pessoas que deram inicio do salão. Um tipo de amuleto.<br>A orquestra no caso era um conjunto, onde além do violão, bateria e alguns metais, tinha alguns integrantes, dirigidos por Valdemar Famula.<br>Já no atual endereço foi montado o primeiro baile, em 1977. E a orquestra em 1978. Cada clube tinha sua orquestra e Augusta achou que o Carinhoso não podia ficar parado, tinha que ter a sua orquestra. Agora com a instrumentação que faltava e também um coral, as músicas tocadas no baile eram de boa qualidade técnica e de cantores, embora desconhecidos, de grande valor principalmente na voz.<br>Nossos “amigos”, como gosta de dizer Augusto, são de 40, 50 e 60 anos pra cima. São pessoas quem não vem só para dançar, muitos vêm aqui há anos e nunca dançaram, sentam numa mesa e vão colecionando amigos(as), sentem-se bem estando aqui. Isso aqui se torna à família de muita gente. As pessoas se sentem bem, as mulheres voltam a ser vaidosas, penteiam o cabelo da melhor forma possível, muitas fizeram plásticas, implantes de dentes, de cabelos, apesar da idade se sentem jovens. Isso aqui para muitos é uma terapia.<br>Quando tivemos que sair do endereço anterior, acertamos com os proprietários desse imóvel a família Burini Tebechiani, gente muito boa. Seu Silas recentemente falecido, sua esposa dona Anita ainda viva, e seus quatro filhos. Depois de tudo acertado tive que fazer uma lista de pessoas para ajudar a reformar o salão. Dessa lista constava o nome de uma senhora que era habitue na freqüência.<br>Ela veio com dois mil dólares e me deu como a oferta que ela achava que o salão necessitava. Fiquei preocupado por ser uma senhora idosa, e podia pegar mal, pois fatalmente isso seria de conhecimento de outras pessoas.<br>Fui falar com seu filho. Que disse: seu Augusto, o dinheiro é dela, e ela faz o que bem entender dele. Minha mãe tem 66 anos, viúva há 12 anos, o que mais tinha eram dores pelo corpo todo. Juntas, unhas, pescoço, cabelo, vivia reclamando da vida. Eu a levava toda semana para o hospital, gastava horrores com remédios. Depois que começou a freqüentar o salão do Carinhoso, tudo isso acabou, vive feliz, vai às 13:00 retorna as 20:00, toma um banho vai para a cama e dorme muito bem até o dia seguinte. Quer coisa melhor do que isso?<br>Caso ela não desse esse dinheiro como contribuição eu gastaria até mais com remédios e hospital. O Carinhoso é a terapia que ela necessitava.<br>Quando o Carinhoso começou a se tornar bastante popular, pessoas de destaque no mundo social e político vieram conhecer o salão. Por aqui vieram José Serra e sua esposa dona Verônica por duas vezes, o saudoso ex-governador Mario Covas também esteve. Valter Feldman, Berzoini, Arsênio Tatto, o médico… Sua memória parece falhar, logo diz. Aquele, do hospital… Da mulher… E… Eu completei: Aristodemo Pinotti? Esse mesmo!<br>Artistas vieram aos montes: Inezita Barroso, Izaura Garcia, Tonico e Tinoco, Wanderley Cardoso, Milton Nascimento, Moacir Franco, Jamelão, Nelson Gonçalves, Roberto Yanez, Francisco Petrônio. Muitos jogadores de futebol. Semana passada mesmo estavam lá alguns jogadores do Corinthians. Se você entrevistar as pessoas, você verá que estou dizendo a verdade.<br>Então fui para as mesas, escolhi uma que tinha cinco pessoas. Todas tímidas e com cisma perante o gravador. Quem resolveu falar mesmo com a timidez inicial foi Ondina, 53 anos, viúva. Uma simpatia de mulher, o sorriso brotava naturalmente de seus lábios.<br>Ondina é uma das mulheres que vão ao Carinhoso mais para apreciar do que para dançar. Se considera uma péssima dançarina. Por isso faz um curso de dança de salão, lá mesmo no Carinhoso, com Domingos e Inanci, três dias por semana, das oito às nove horas da manha, e paga cinco reais por cada aula. Diz que esta muito crua ainda. As demais ficam caladas. Mas Bete, uma morena que aparenta ser a mais jovem da mesa, começa a se soltar. Diferente de Ondina, da qual é amiga desde a infância no bairro da Saúde, gosta de dançar, enquanto eu estava na mesa dançava sozinha. Acho que ela só escolhe parceiro bonito, e por enquanto não devia ter aparecido ainda. Fazia questão de ser fotografada, e é bastante fotogênica, mesmo dançando a sós. E quando Bete foi para o meio da pista dançando sozinha, fiquei novamente conversando com Ondina.<br>E ela confirmou que muita gente vem para ficar observando. Foi dizendo: tem uma pessoa que vem aqui em cadeira de rodas, vai pra cá e pra lá, vai fazendo amigos, nunca falei com ele, tenho medo de ser mal compreendida. Sabe, um deficiente físico sempre pensa que a gente se aproxima dele por dó? Mas na verdade eu acho ele corajoso em sair de casa mesmo com uma deficiência e vir aqui se distrair. Tem gente que com uma simples dor de cabeça não sai de casa e o cara numa cadeira de rodas está sempre aí. Acho super bonito.<br>Não demora muito e aparece um homem de cabelos brancos, mesmo não parecendo muito idoso, em sua cadeira de rodas. Ondina fala: é ele mesmo. Fui atrás dele e comecei a conversar. Depois de saber que se chamava Vinicius de Andrade, sem constrangimento algum perguntei:<br>- O que faz um cadeirante vir a um salão de baile?<br>Sem pestanejar foi dizendo:<br>- Eu entendo que você não dança só com o corpo. Dança com o espírito e com a alma também. E aqui é também o lugar onde você faz boas amizades, e o ambiente é muito bom. Sempre há muitos colegas, e você passa a ter um conhecimento da vida de cada um. Todos aqui são amigos, é um ambiente extremamente saudável, a orquestra é muito boa, as músicas são muito estimulantes. Enfim, é uma maneira da gente se sentir mais feliz dentro de um lugar.<br>Quando Ondina estava distraída com suas amigas na mesa, eu vim por trás trazendo aquele que ela admirava e não tinha coragem de se apresentar. Aí a conversa foi longa. Ambos tinham estudado direito nas arcadas do largo São Francisco, pertencente a USP.<br>Mesmo em anos diferentes estudaram com o professor Gofredo da Silva Teles.<br>Enquanto Dra. Ondina conversava com Dr. Vinicius, apareceu pelas proximidades Domingos, o professor de dança de salão. Fui até ele de gravador em punho.<br>Logo no início da conversa foi dizendo:<br>- É verdade, dou aulas aqui no salão, junto de minha esposa Inanci, segunda, quarta, quinta e sexta, somente às terças feiras não tem. Não é um esquema de academia. Aprende-se aquilo que se dança no salão que se freqüenta. È o figurado, floriado, o samba, um pouquinho de pagode, gafieira, puladinho. Outros ritmos que nós ensinamos são o Mambo, o Tchá-Tchá-Tchá, o Forró, e aquele famoso soltinho, que todo mundo fala que é o Rock, dos anos 1950. A idéia veio pelo fato de observarmos pessoas de ambos os sexos que não dançavam por vários motivos. Uns dançavam mal, outros não sabiam dançar e iam somente para tentar a sorte com alguma mulher, ou ao contrário. Tinha muita gente que não dançava pelo fato de não saber tirar a dama para dançar. Sendo assim, não conseguia dançar, e às vezes ele tinha uma vontade em estar com uma mulher, pois a dança é o momento propício para se conversar e porque não dizer, se acertar.<br>- Acontece, professor, de um homem ser rejeitado por não saber tirar a mulher para dançar?<br>- Sim. A idéia é justamente essa. A gente tenta acabar com o fato de que ele fique inibido em tirar alguém para dançar. Então ele vem, se enturma, e no curso já vai perdendo essa timidez. Então ele não vem somente para aprender a dançar, para fazer show. Ele vai aprender a se comportar dentro de um salão de baile, dançando bonitinho, vamos dizer assim. Um figuradinho. Não precisa ser mirabolante ou maquiavélico. A coisa é sutil. Saber tirar uma dama para dançar, que é muito importante. Às vezes o cara chega assim: hei, vamos dançar? <br>É chegar e: senhora ou senhorita, dançaria comigo? É saber se portar dentro de um salão de baile, e claro saber uns passinhos sempre é primordial. Porque também com aquele que não sabe nada às vezes a dama dança um pouquinho e larga no meio do salão. Coisa que nós ensinamos é que não se deve largar um cavalheiro ou uma dama no meio do salão. Porque ela ou ele não sabem dançar. Tem que conduzir a dama até a mesa, ou então ela deve dizer ao cavalheiro: me leva até a mesa, a gente não está se acertando. Tudo é a maneira se portar dentro do salão de baile. São aulas práticas e teóricas.<br>- Professor, ainda tem aquele sujeito que quando dança com uma dama que está de vestido branco e coloca um lenço por debaixo da mão para não sujar a roupa?<br>- Olha, isso aí até um tempo atrás ainda tinha. Hoje já não tem mais. No meu tempo tinha, no seu também. Era muito bom, muito bonito. Hoje é difícil até o cavalheiro que tem um lenço no bolso.<br>Ao deixar as dependências do salão, e vendo os nomes de ruas das proximidades, cheguei à conclusão que o Carinhoso faz parte da historia do bairro do Ipiranga, e o Ipiranga faz parte da história de São Paulo e do Brasil.<br><br>e-mail do autor: [email protected]