O duelo de titãs

Pedro Stefano é meu amigo de infância dos tempos do Brás antigo, e mantemos amizade até os dias atuais, após 53 anos.

Pedro sempre foi forte. Aos oito anos de idade já trabalhava na oficina do pai, na Rua Visconde de Parnaíba (nº. 552), apertando e desapertando os parafusos das rodas dos carros, operava o macaco-hidráulico e trocava os pneus com habilidade.

O emprego do vigor físico o tornou musculoso, parrudo e marrudo, com uma grande força bruta. Exibia com orgulho o muque, o bíceps, aquele músculo desenvolvido que impulsiona e sustenta a força dos membros superiores. As camisas que vestia viviam com as mangas arregaçadas, enroladas pra cima.

Apesar dessa descomunal força nos braços, não era afeito a brigas. Vivia uma vida normal de rapaz de família dos anos sessenta no Brás, onde reside até os dias atuais, hoje proprietário de oficina de automóvel Stefano.

Casou, construiu família e vivia sua pacata vida. Do trabalho à residência era seu ritual diário. Aos sábados à tarde visitava seu irmão, Angelino “O Lino”, seu sócio na mecânica, que residia numa vila de casas, a qual ligava a Rua Dom Bosco à Rua da Mooca, em frente ao Ginásio Estadual Antonio Firmino de Proença, exatamente a Vila Clélia.

Saindo com seu Fusquinha, a mulher e os dois filhos em direção à Rua Carneiro Leão (A Visconde Parnaíba, na época, era mão única em direção ao centro da cidade). Virou à esquerda na Rua Carneiro Leão quando, em disparada, em alta velocidade, passou um Mustang azul, cantando os pneus. Parecia um veículo espacial que contém explosivos, propelido pela descarga, na parte traseira, dos gases liberados pelo combustível.

Pedro nem ligou… Continuou seu destino, cruzou a Rua da Mooca em direção a Vila Clélia para, pacatamente, visitar seu irmão. Virou a Rua Dom Bosco à esquerda, esse era seu caminho. Aproximou-se do portão da vila e entrou. Estacionou no meio fio, próximo ao sobrado onde resida seu irmão.

De repente, notou, com andar apressado, bravejando, um homem atarracado, aparentando quarenta anos, em sua direção, gesticulando com a disposição de agredi-lo. Era o motorista do Maverick azul.
— Você veio atrás de mim, me seguir, vou te pegar de pau!

Pedro não conseguiu explicar a visita ao seu irmão, morador da vila, nem a coincidência do destino dos dois. O homem também não conseguiu seu intento em agredi-lo. Pedro agarrou seu pescoço em autêntica chave de braço, utilizando o braço esquerdo para comprimir com sua exagerada força o pescoço do então adversário. Com a mão direita fechada dava murros no rosto do agressivo motorista. Os moradores da vila incitavam mais a luta corporal, em que havia somente um lutador. Pedro batia e o agressivo chofer apanhava.

Com o clamor das mulheres e a rogativa dos filhos, ele soltou o homem. Com o rosto cheio de hematomas, e a gritos repetidos, o homem esbravejava:
— Nunca ninguém bateu na minha cara. Vou te matar.

Em rápido movimento, foi até o Maverick azul estacionado no meio da vila e retornou de revolver em punho. Um bojudo 38 com o tambor cheio de balas. Gritava novamente o homem:
— Nunca ninguém bateu na minha cara. Vou te matar. Vou te matar!

A Vila ficou deserta; até o irmão Lino subiu em correria desordenada ao sobrado, ficando na janela à espreita para apreciar o combate.

Com medo enorme de morrer, passou na cabeça de Pedro um filme de toda sua vida, parando no clássico do faroeste antigo: Duelo de Titãs, em que nesse bangue-bangue Pedro era Anthony Quinn, que morria no final, e o outro era Kirk Douglas. Com um fio de voz reprimida, Pedro ainda se expressava, ditando coragem que não havia:
— Larga o revólver e vem à mão livre!

O homem não era bobo, sentia no rosto as dores dos socos recebidos. Para o alívio de Pedro, o homem resolveu terminar naquele instante o duelo de um revólver só. Iniciou a retirar-se para sua residência, retornando o revolver à cintura. Morava também na Vila o duelista.

Pedro subiu apressado ao sobrado, que estava escuro, pois as luzes haviam sido apagadas. Lino, inconformado, aproveitou a retirada do adversário e, a observar da abertura da janela, bradou veemente:
Enfia o revólver no c…!

O homem voltou, mais exaltado e mirando em direção da janela pedindo para que alguém colocasse a cabeça pra fora, e ele atingiria o alvo com um tiro certeiro. A ausência de ruídos retornou ao sobrado. O silêncio se fez presente.

Um morador da vila, com mais idade e agudeza de espírito, convenceu o dono do Maverick azul a ir para sua residência cuidar dos hematomas, argumentando que na luta entre Joe Frazier vs. Cassius Clay, da época, apesar de Mohamed Ali ter saído da peleja sem escoriações, o vencedor foi Joe Frazier, mesmo com a cara cheia de hematomas.

Com sorrisos de escárnio, os moradores da vila discutiam o duelo e comentavam maliciosamente quem era o proprietário do Maverick azul: o delegado titular da 8ª. Delegacia, da Rua do Hipódromo, tido como uma autoridade arrogante, valente e fanfarrão… E que, pela primeira vez, havia apanhado na cara.

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