Ontem o "faz tudo" apareceu com uma novidade. Só pra lembrar, um "faz tudo" é uma pessoa ou empregado que é polivalente. No meu caso, dentre outras coisas, ele faz faxina, lava carro, vai ao sacolão, faz feira, conserta fio de ferro elétrico, troca lâmpadas, courinho de torneiras, botijão de gás, vai à lotérica fazer jogos ou comprar recarga para celular, apara trepadeiras e as "unhas-de-gato" dos muros, limpa as calhas da casa, desentope ralos, repõe terra nos vasos de plantas, faz reparos no telhado, limpa as caixas de água etc., etc.
Pois bem, ele chegou contando que um senhor conhecido (também um "faz tudo") foi se candidatar a uma vaga de Papai Noel num "shopping bacana" na região dos Jardins; aliás, contra a vontade da "cara-metade", que não gostou nada da idéia de o marido ficar no meio das madames grã-finas e suas mimadas crias, ela até preferiria que ele ficasse num barzinho jogando conversa fora…
Daí, eu me lembrei que, há tempos atrás, participei de um concurso de contos e crônicas organizado por um conhecido escritor e cronista. A minha historinha não foi classificada, mas me rendeu alguns elogios de familiares (puxa-sacos…). Como o tema tinha alguma relação com o que eu citei acima (Papai Noel de aluguel), peço licença aos caros colegas do site para transcrevê-la.
Aí vai:
Pequeno conto de Natal (Gínia/dezembro de 2000)
"O menino franzino, mal trajado, atravessou a rua em direção da esquina, onde havia uma aglomeração. Era a semana anterior ao Natal, as ruas paulistanas estavam cheias de pessoas apressadas, as lojas festivamente adornadas, os vendedores chamando os possíveis fregueses.
O garoto dissera à mãe que iria entregar uma cartinha para o Papai Noel, que estava fazendo ponto numa loja da rua. Chegou de mansinho, entrou na fila atrás de outras crianças.
Quando chegou sua vez, não disse uma palavra, entregou um papel dobrado ao velhinho magro metido numa roupa que cabiam dois. O homem pareceu nervoso, suas mãos buscaram as barbas postiças, como se quisesse tirá-las. Desdobrou a folha de caderno, em que as letras garatujadas diziam: "Papai Noel, eu não quero presente, só quero que o senhor me faça um favor: diga para o Menino Jesus ajudar a minha mãe; ela está cansada de tanto fazer faxina na casa dos outros. O meu pai só vive no bar jogando e bebendo, briga com todos lá em casa. Será que o senhor me faz esse favor? Obrigado, meu nome é José, que nem o pai de Jesus, quem sabe ele vai me ajudar.".
O Papai Noel, com lágrimas nos olhos, passou a mão na cabeça de José, que se afastou com um sorriso triste. E o velhinho, com o coração apertado, seguiu com o olhar a figurinha frágil de seu filho."
É isso aí, amigos. E viva o Papai Noel!
e-mail do autor: ginia.andré@uol.com.br