No cotidiano, as histórias nos cercam. Desejando, ou não, somos abarcados, atirados mesmo, em uma refega de fatos e de ilusões que superam muito a nossa vontade de ser, ou não, coadjuvantes. O livre arbítrio nos trai, e nos conduz qual um floco de paina na dança do vento, ou um graveto rolando entre os seixos dos cristalinos arroios das montanhas, em direção ao inesperado.
Há anos, não sei mesmo precisar quantos e quando, me penitencio por não me recordar dos nomes dos envolvidos, pois os fatos, na época, não me significaram nada.
Seguramente, falo dos anos sessenta. Morava eu em Vila Prudente e tinha vários amigos no bairro. Eram inúmeros filhos de imigrantes: alemães, italianos, polacos, lituanos, estonianos e outros mais, rescaldo triste da Segunda Guerra Mundial.
Pois bem, em certa ocasião, nessa época, quando em pequeno grupo de amigos vagávamos sem foco, pela Rua Capitão Pacheco Chaves, ao lado do então cine Vila Prudente, jogando fora despretensiosas conversas, eis que sem mais nada, um dos rapazes de origem alemã chamou a atenção dos demais com um comentário:
– Olhem quem vem vindo, “O doutor”!
Olhei por olhar, notei porém que, com certeza, alguns dos garotos o reconheceram. Me chamou a atenção uma pessoa que subia a Rua Maria Dafré em passos bastante ágeis. Era um homem vestindo uma capa de chuva bege clara, com um chapéu na cabeça. Pareceu-me estranho sua indumentária, já que o tempo não prenunciava chuvas nem frio. E, embora houvesse uma relativa distância, seus olhos marcantes, que talvez poderiam ser definidos como profundamente cavernosos, me provocaram uma sensação estranha, de um arrepio desagradável.
Reparei também que os garotos alemães aparentaram se sentir incomodados, sem sinais de proximidade. Pelo contrário, disfarçadamente, procuravam não encarar o cidadão.
Alguém na roda de amigos – que como eu, desconheciam quem era o tal indivíduo -, perguntou quem era ele, e a resposta veio instantânea:
– É um refugiado da guerra, “o doutor” – e acrescentou de súbito -, mas que não é bem aceito no meio da colônia por seu passado.
O assunto morreu por aí. Continuamos nosso bate papo.
Passou-se o tempo, e havia mesmo me esquecido do tal caso. Certa oportunidade estava eu pela mesma região andando, quando coincidentemente, me chamou a atenção, e me remeteu à memória, um cidadão que a passos curtos, porém ágeis, caminhava. Vestido de modo semelhante, na mesma esquina onde já o havia visto. Tive a possibilidade de ver aquele rosto ausente de simpatia, observei ainda seus dentes estranhamente separados. Positivamente, era “o doutor”. A presença daquele mesmo estranho indivíduo, vestindo a mesma indumentária.
Durante o fim dos anos sessenta e início da década de setenta, por, talvez, algumas vezes, tornei a cruzar com o citado indivíduo. O que me chamara a atenção era ele estar curiosamente, em todas as vezes que o avistei, vestido do mesmo modo e sempre nas imediações do mesmo local.
Passou-se o tempo, anos esvaíram, me mudei da Vila e o fato tinha já caído no esquecimento. E eis que, lá em meados dos anos 80, vi uma foto ilustrando uma notícia no jornal.
A foto me era familiar e sem mesmo atentar para o conteúdo da notícia, num quase sobressalto, reconheci imediatamente aquele rosto, os dentes estranhos e os olhos cavernosos. Era o “doutor”.
Volvi ao texto. A notícia confirmava a morte por afogamento, de um conhecido nazista “Josef Mengele”. Era ele “o doutor”.