O doce de banana da dona Lilinha

Eu nunca soube o nome da dona Lilinha, mas era uma senhorinha muito simpática, nossa vizinha no Cambuci. Morávamos em um sobrado modesto, pequeno, sem garagem. Aqueles sobrados que foram construídos no tempo em que carro era artigo de luxo. Aliás, na nossa rua existiam dez sobrados iguais, sendo cinco de cada lado, separados por uma vila.

O antigo bairro operário guardava na arquitetura muito das suas lembranças e histórias. Tempos de anarquismo, de forte presença italiana, de um operariado empenhado na luta por melhores condições de vida. E a dona Lilinha era a avozinha de uma família também pequena, que morava no sobrado vizinho e muito nos chamava a atenção.

Ela tinha apenas dois dentes. Um em cima do lado direito e o outro embaixo, à esquerda. E assim ela ia vivendo sempre quietinha, recolhida em casa, mulher de fina educação. Em uma tarde de outono, antes de minha avó descer para ouvir o programa da Hebe Camargo pelo rádio, tocou a campainha. Era a dona Lilinha e pediu para que eu perguntasse para minha avó como se fazia doce de banana.

Tudo porque na nossa casa o doce de banana acabava de ficar prontinho. E o cheiro exalava por toda vizinhança. Prontamente subi as escadas e relatei o ocorrido para a minha avó. Rápido, ela ditou: – um quilo de banana nanica madura, um tanto (não me lembro quanto) de açúcar e caldo de meio limão. E frisou bem: – caldo de meio limão.

Desci as escalas e repassei a receita. A dona Lilinha ficou contente, agradeceu e foi-se embora. Ela deve ter feito o doce logo em seguida, dado o seu interesse e deve ter ficado muito gostoso. Olhando para esses tempos percebo as mudanças nas estruturas das famílias, na forma de se viver, nos avanços que a urbanização e a presença da escola nos trouxeram.

Provavelmente a dona Lilinha era semi-analfabeta, as duas filhas trabalhavam no correio, andavam impecavelmente vestidas, perfumadas e com todos os dentes. Os dois netos se fizeram. Um deles tornou-se advogado e logo no primeiro emprego comprou um fusca na cor café-com-leite e ostentava o adesivo da faculdade que cursava. O outro um médico de enorme prestígio na comunidade acadêmica hoje.

Poder relembrar o passado com um olhar carinhoso é uma forma de agradecimento por todos os anos de luta que os mais velhos enfrentaram. Lutas, dificuldades, adversidades e sonhos não realizados. Eu sempre soube que a maioria não sonhou para que nós pudéssemos sonhar. Não comeu o que tinha vontade para que nós pudéssemos comer. O que dizer do estudo?

O quanto eles olhavam para as escolas e não podiam entrar. Ler os livros que não podiam comprar. Viajar e contemplar o que hoje podermos fazer. Um singelo agradecimento a todos eles que, de todas as formas lutaram, para que pudéssemos dormir com tranqüilidade e ajudaram a construir um mundo bem melhor, pois ensinavam na simplicidade e no português mal falado. Com carinho, partilhavam saberes a qualquer hora, inclusive à receita do doce de banana… Com caldo de meio limão.

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