O contra-ataque da dona de casa

Anos 60, bairro do Ipiranga. Era muito comum os vendedores circularem de bicicletas e carrinhos, vendendo seus produtos de casa em casa, pois na época não se tinha essa facilidade que temos hoje em termos de locomoção, nem locais de compra como supermercados e shoppings.

Assim, não raro, passavam pelas nossas casas verdureiros, padeiros, mascates, até joalheiros, pasmem. Era o início do delivery e nem sabíamos que isso um dia existiria e seria o top do comércio no novo século.

Enfim, um fato curioso chamou minha atenção naquela época, do qual me lembro até hoje e, principalmente hoje, onde as bactérias e vírus são as estrelas e as vilãs do mundo moderno.

Chegou o padeiro à nossa porta, como fazia diariamente; minha mãe saiu, toda atarantada, de avental e, num gesto espontâneo, foi pegar o "filão", como era chamada uma baguete de pão na época. A reação do padeiro foi imediata:
– Não toque nos pães! Só eu pego…

O vermelho ítalo-brasileiro apareceu de imediato na face de minha mãe e sua expressão mudou imediatamente. Quando eu menos esperava, ela veio com essa para o padeiro:
– Nunca se refira às mãos de uma dona de casa como se estivessem sujas. Uma dona de casa passa o dia lavando, cozinhando, mexendo com a casa e a comida! Nossas mãos estão sempre limpas, ou pelo menos, muito mais limpas que as suas. O senhor está distribuindo esses pães desde cedo. Por acaso nesse período não parou para ir a um banheiro ou fazer troco com o dinheiro? Quem me garante que lavou as mãos após isso? Portanto, meu amigo, eu prefiro pegar o meu "filão" com minhas mãos, que garanto estarem limpas. E não diga mais isso sobre uma dona de casa.

A partir daí, muitas vezes tínhamos que andar muitos quarteirões em busca de pão, pois a padaria mais próxima era meio longe, e o senhor padeiro começou a rarear suas visitas à nossa rua, mas eu nem me importava.

Cada vez que eu olhava para as mãos de minha mãe, eu as achava cada vez mais limpas!

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