Nos idos anos 50, a vila era pacata e não se viam grandes novidades no seu dia a dia. Era um misto de monotonia que se cingia à rotina, onde pouca coisa mudava. Os mesmos eventos e sempre as mesmas pessoas. Isto não deixava de ser um atrativo, pois todos se conheciam, e era parte do ritual do dia a dia, ao andar pelo bairro, encontrar rostos conhecidos, numa continua sequência de "bom dia" e "boa tarde".
O comércio com seus pontos imutáveis de convergência era o canalizador desta proximidade. Se alguém necessitasse de materiais de construção, sabia onde procurar iria diretamente para a loja do Magalhães. Para os olhos infantis com os quais eu admirava esta loja, era um paraíso de compras incomensurável, onde, qual num imenso brechó, se podia encontrar de tudo para construir uma casa.
Uma outra loja que se destacava pelo tamanho era a loja de móveis Jequithay, localizada no Largo da Vila Prudente (Praça Padre Damião), de onde a família Gavendo tirava seu sustento. Recordo-me como se hoje o fosse, meu primeiro dia de escola na Escola Orosimbo Maia onde um garoto gordinho ocupou o assento ao meu lado, na carteira dupla que era usual nas escolas de então.
Conheci aí o Salomão Gavendo, em mencionada escola. Ao lembrar da Escola Orosimbo Maia, vem à recordação dos seus diretores Dona Odete e seu marido o prof. Maiorga. A escola também era detentora de um ícone, um professor muito admirado. Na verdade na época eu não sabia o porquê, porém anos mais tarde entendi que ele era um professor muito especial e um grande intelectual. Tratava-se do prof. Adriano Genovesi.
Se alguém ficasse doente, procurava o Dr. Valdomiro ou o Dr. Salim, mas com certeza antes passava para um pré-diagnostico, na farmácia de Seu José. O famoso “Seu Zé da farmácia”. Dentistas, então eram o Dr. Paulo Rosa na Rua do Orfanato e, que tinha tido a infelicidade de na sua formatura ter sido atingido por um objeto que tirou a visão de um olho, ou ainda o Dr. Onório que, contava sempre saudoso os seus tempos de aviador e do acidente aéreo que quase tinha tolhido sua vida e deixara permanentes marcas em sua capacidade de locomoção.
Se sua necessidade era de fotos para documentos, aí havia duas opções O Foto América, e o Foto Kobayashi onde eu preferia ir para tirar as clássicas fotos 3 x 4 que serviam para tudo. O fotografo tinha uma irmãzinha nissei, lindíssima. Quanto a padarias a vila era farta, é bem verdade que todas se localizavam na mesma Cap. Pacheco Chaves, mas a disputa do pão mais gostoso redundava em empate.
Para uns não havia pão d'água melhor e mais apetitoso que o da padaria do Abel, para outros, o pão d'água do Abel era bom, mas sem dúvida nada poderia superar o aroma inebriante de pão de banha quente da padaria do Machado. Logicamente para terceiros imperdível era o crocante pão suíço da padaria do Paiva. Esta argumentação se prolongava sem sucesso de vencedores ou vencidos entre amigos tomando cafezinhos que, jorravam pelando das “Machinas Monarcha” inundando as cercanias com o mais agradável aroma do autêntico café arábico, um verdadeiro néctar das musas.
Gerando aí mais uma polêmica, qual era o melhor cafezinho, o do Abel, do Paiva ou do Machado… Confesso que até hoje não sei! Para os moradores mais distantes do centro da vila, havia os padeiros com suas carrocinhas que entregavam o pão cedinho, deixando na porta das casas. Outra reminiscência é a do leiteiro da Vigor que chegava para a entrega nas padarias e armazéns, em um carroção de quatro rodas, fechado, possuindo uma isolação térmica, tracionado por dois alazões, na cor cinza claro inolvidável e nas laterais se lia em letras garrafais Leite Vigor.
Ao lado da padaria do Abel se localizava o armazém do Henrique, “Forli”. O espaço era ocupado por inúmeras sacas de diversos tipos de grãos, como feijão, arroz, ervilha, milho, grão de bico entre outros. As donas de casa podiam escolher ao seu agrado. Os cereais, azeitonas, sardinhas salgadas, caixas de bacalhau e latões de manteiga era tudo em tambores a granel, exceto o açúcar União que vinha em sacos de papel com meia arroba de peso, e o café que podia vir em saquinhos de papel ou ainda ser moído na hora.
Era o mercado de então e que servia de fornecedor de cereais, e demais insumos que necessários às donas de casa. Mas o Armazém do Henrique era avançado para a época e possuía um eficiente serviço de entregas a domicilio, feito por uma frota de carroças estacionadas ao lado do armazém, na Rua Cervantes. Não se pode olvidar também na Rua Vinte a ótica Jurandir, bem ao lado da papelaria Dalla Dea, a loja de móveis Vecchi no início da Rua do Orfanato e o depósito de bananas do Japonês na Cap. Pacheco Chaves.
Quanto ao lazer a opção era o cine Vila Prudente na Cap. Pacheco Chaves na esquina da Maria Dafré. Para se assistir filmes era obrigatório o uso de terno e gravata para os cavalheiros, com exceção feita nas "matinées" de domingo onde a garotada assistia a vontade, dois filmes e de quebra um seriado, que semanalmente mostrava aventuras em continuidade. Como às vezes tendo em cartaz O Zorro outras Roy Rogers, Dick Trace e demais heróis da época.
Alguns anos depois surgiu o Cine Amazonas, na Praça Padre Damião, mas este cinema nunca teve o charme do cine Vila Prudente… Bons tempos que teimam em povoar as memórias, talvez saudosismo, mas que era bom… sem dúvidas era.
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