O começo do fim

Assim como as manhãs, eu também nasci na Aurora. Na Rua Aurora. Ah, que saudades eu tenho da Aurora da minha vida! Rua de nascer gente de Família, até pouco depois de 1953, quando o Governador Lucas Nogueira Garcez, atendendo a seu pio eleitorado, num rasgo de moralidade e autoridade, erradicou a prostituição da Capital de seu Estado, fechando, por decreto, a "zona do meretrício", denominação que, quando proferida próximo a suas fiéis eleitoras, exigia destas imediata persignação. Erradicou? Bem, isso é o que ele pensava até a aplicação do extemporâneo decreto.
Era um conjunto de cinco ou seis pequenas ruas que, limitadas pelos muros da Estrada de Ferro, permitiam rigoroso controle de sua freqüência, pois seus acessos só eram possíveis por duas delas, as que ficaram conhecidas e reconhecidas como as ruas do pecado, da perdição, as Ruas Itaboca e Aimorés. O confinamento da baixa prostituição permitia o controle sanitário, tão necessário numa época sem AIDS, mas com gonorréia, cancros, sífilis. Graças a essa concentração, mantinha-se também sempre atualizado o arquivo das "fichas" que identificavam os que escolhiam a vida fácil (?) para sobreviver. Eram todos fichados, de meretrizes a proxenetas, de putas a cafetões. E veio o malfadado decreto!
A presença do Mercado Municipal da Cantareira criou referência e no seu entorno se estabeleceu a Zona Cerealista. Assim foi com as papelarias e as miudezas e o entorno da Vinte e Cinco de Março. As ferramentas ocuparam toda a Florêncio de Abreu e, assim por diante, foi se firmando um conceito vigente até hoje no Comércio: a proximidade dos concorrentes, ao invés de prejudicar, favorece o comerciante pela natural atração de compradores, convictos de que, pela profusão, não deixarão de encontrar ali o produto procurado. Não poderia ser diferente: o sexo pago, farto em opções e as Estações da Luz e Sorocabana, se faziam estreitamente ligados. Se os que se serviam das "pecadoras" chegavam à extinta "zona" vindo de trens, bondes e ônibus, tão correto como natural era que se buscasse ocupar espaços o mais próximo possível dessas Estações e dos pontos de ônibus e bondes.
O Centro, ainda não velho, mas já histórico, começava sua lenta agonia. Lenta e gradual, como gostam os que se expressam pelo "economês". Lugares bons de morar, próximos de tudo o que a Cidade nos dispunha de melhor, jamais imagináramos uma mudança. Imperioso, portanto, resistir. Uma rápida queda de braços se estabeleceu. Assim como inevitável se criou a resistência, insuportável se tornava a insistência. Venceram os mais bem armados e aos poucos se foram dali as Famílias.
Não mais que de repente tudo se transforma: pequenos prédios vão se tornando prostíbulos, alguns se emplacando como "hotéis"; nascem "n" bares que preservam a intimidade de seus freqüentadores com indevassáveis biombos à porta. E o contingente antes restrito a cinco ou seis quadras de um "gueto" controlado, se assenhora das Ruas Vitória, Aurora, Triunfo, Gusmões, Andradas, Santa Efigênia, além das barões de Limeira e Campinas e das tribais Guaianases e Timbiras. Não escapam nem as avenidas e a Duque de Caxias, a Rio Branco e parte da São João logo se incorporam, trazendo consigo as praças Julio Mesquita e Princesa Izabel.
Ruas onde ainda há pouco habitava a decência, hoje vêem desfilarem zumbis, a caminho da demência. Muda-se apenas uma consoante, altera-se toda uma História. Uma História que reservou a seu principal personagem o quase completo esquecimento. Dele só se recordam alguns poucos historiadores que, fiéis aos fatos, registram sua passagem pelo Palácio dos Campos Elíseos e a maior de suas poucas obras: a penada que decretou o fim do Centro vivo, histórico e feliz de São Paulo, Cidade. Descanse em paz!